|
keontext

Até agora, centenas de milhares, talvez milhões de pessoas têm saído às ruas por todos os EUA para protestar contra os assassinatos policiais de George Floyd e Breonna Taylor e contra a horrível violência racista que a polícia inflige em nossas comunidades todos os dias. Milhões mais apoiam os protestos, de acordo com pesquisas nacionais. E as pessoas têm organizado manifestações em todo o mundo. As pessoas estão legitimamente revoltadas com a opressão racista que enfrentaram e testemunharam.

Embora os ganhos ainda sejam limitados, vimos que os protestos começaram a funcionar, já que alguns políticos mostraram que estão dispostos a fazer algumas concessões. É preciso manter a pressão nas ruas. E além disso, para levar a luta para o próximo nível, precisamos que as pessoas indignadas com o racismo na América se filiem a uma organização socialista.

Os socialistas sempre estiveram na linha de frente da luta contra o racismo. E eles são hoje a linha de frente da luta ao lado de membros da classe trabalhadora multirracial. Para as elites políticas liberais, o anti-racismo é só para a foto, algo para pegar quando é conveniente, talvez quando as pessoas ficam muito agitadas e começam a incendiar delegacias de polícia. Mas, para os socialistas, é fundamental. Por quê?

Para ter certeza, há um consenso entre os progressistas – não apenas socialistas – de que o mau trato de uma pessoa ou de um grupo de pessoas com base em sua raça é errado. Por extensão, a coisa moralmente boa a fazer é se opor ao racismo. É claro que os socialistas também se opõem ao racismo por razões morais.

Mas, por mais horrível e imoral que seja, o racismo é mais do que uma questão moral. É uma questão política central para o movimento socialista.

Os socialistas acreditam que a classe trabalhadora – a grande maioria das pessoas na Terra – deve governar a sociedade por si mesma. Em contraste, neste momento, vivemos sob um sistema capitalista onde os capitalistas – pessoas que possuem e controlam grandes empresas e os ativos produtivos da sociedade – ditam como passamos a maior parte do nosso dia-a-dia e estabelecem a agenda política.

É importante ressaltar que os capitalistas dependem do racismo para manter seu poder. Isso significa que os trabalhadores nunca terão o controle de suas próprias vidas sem enfraquecer dramaticamente o poder do racismo. Isso porque o racismo é mais do que visões e estereótipos preconceituosos dos indivíduos. É uma parte essencial do capitalismo. O capitalismo precisa do racismo para sobreviver, o que significa que o racismo nunca será totalmente derrotado enquanto o capitalismo governar o mundo.

É verdade que o preconceito e a discriminação não desaparecerão por magia no primeiro dia de uma sociedade socialista; ainda haveria muito trabalho a ser feito. Mas, como o racismo é parte essencial do capitalismo, nem sequer é possível eliminar o racismo na sociedade capitalista.

RAÇA, RACISMO E CAPITALISMO

Para a maioria das pessoas hoje, uma “raça” é mais ou menos entendida como um grupo de pessoas com um conjunto comum de traços físicos observáveis, principalmente com base na cor da pele, características faciais e textura do cabelo. Nos EUA, as pessoas se identificam e identificam outras como “branco”, “negro”, “asiático”, “hispânico”, “nativo”, etc., com base nesses traços. Em outras palavras, “raça” é uma categoria descritiva baseada em algum amplo entendimento social de algum grupo com um conjunto de características físicas. Para a maioria das pessoas, “racismo” refere-se ao mau tratamento de indivíduos ou de um grupo de pessoas por causa de sua aparência. Sob essa perspectiva, a justiça racial trata de reduzir o preconceito pessoal e remover políticas e práticas institucionais que levam à desigualdade entre as raças.

Eis o que é importante do ponto de vista socialista: O racismo não só cria tratamento diferente, oportunidades na vida e resultados econômicos para diferentes grupos raciais, como também é uma ideologia através da qual o próprio conceito de raça é criado.

No capitalismo, os grupos raciais têm sido construídos ao longo do tempo para formar uma hierarquia. A hierarquia se desenvolveu de modo que trabalhadores com a mais próxima semelhança física com a classe dominante européia enfrentaram relativamente menos exploração e opressão da classe dominante, enquanto trabalhadores com aparência física mais diferente dos europeus enfrentaram muito mais exploração e opressão.

Esta classificação criou uma unidade simbólica entre os trabalhadores brancos e seus exploradores brancos. Isso aconteceu ao lado do início das ideologias de mobilidade social ascendente, através das quais os trabalhadores brancos poderiam um dia possuir terras, escravos e se tornarem ricos. Ao mesmo tempo, a escravidão tornou-se um sistema hereditário em que os africanos eram tão explorados que não eram apenas trabalhadores, mas propriedade. Os capitalistas sempre têm um incentivo para baixar o custo do trabalho e diminuir o poder dos trabalhadores. Assim, para eles, o escravo é um trabalhador ideal – alguém que não é pago, que não pode mudar de emprego e que não pode revidar.

Esta classificação dos trabalhadores em grupos menos explorados (brancos) e super explorados (negros) foi uma das muitas ferramentas utilizadas pela classe dominante para maximizar seus lucros e impedir a solidariedade da classe trabalhadora entre as raças. Eles podem ter sido forçados a abrir mão da escravidão formal, mas a mesma estratégia ainda está em vigor hoje.

O projeto de criação de raças não só envolveu o desenvolvimento de grupos raciais fisicamente definidos, mas também criou experiências materiais divergentes para os trabalhadores brancos e trabalhadores negros escravizados. Os trabalhadores brancos tinham a capacidade de acumular riqueza, pelo menos em teoria. Mas os trabalhadores negros escravizados não podiam acumular riquezas porque a classe dominante os definia como propriedade. Eles não podiam possuir riqueza porque eram riqueza – para outra pessoa.

Mesmo depois do fim da escravidão, muitos métodos legais e extra-legais permaneceram para impedir que os negros acumulassem riquezas. Uma tática chave era a classe dominante continuar a fomentar o ódio racial e o preconceito entre os trabalhadores brancos, fazendo-os acreditar que os trabalhadores negros, e não os proprietários brancos, eram a ameaça à sua segurança. O duplo objetivo permaneceu o mesmo: aumentar os lucros e impedir que a classe trabalhadora se unisse contra a classe dominante.

Na raiz, a estrutura de classe capitalista existe para manter alguns poucos muito ricos e muitos pobres e explorados. E se desenvolveu com o racismo como parte de seu DNA.

JUSTIÇA RACIAL E SOCIALISMO
Como o racismo é uma parte necessária do capitalismo, há limites substanciais para combater o racismo separadamente do combate ao capitalismo. É claro que o racismo agora não é tão ruim quanto era sob a escravidão ou sob Jim Crow (níveis baixos demais para se encontrar!), mas isso não quer dizer que vá simplesmente murchar mexendo um pouco aqui e um pouco ali.

Um dos pontos fortes do capitalismo é sua flexibilidade, e o sistema capitalista sempre encontrará novas maneiras de perpetuar o racismo quando as formas velhas se tornarem insustentáveis. Na verdade, as formas mais antigas e brutais de racismo só mudaram quando os trabalhadores – predominantemente negros – tornaram os custos políticos e econômicos dessas formas demasiado altos. Sentar-se [em locais proibidos] [1], marchas e tumultos perturbaram a sociedade o suficiente para que ela se tornasse muito cara para a classe dominante manter o status quo. Os protestos em todo o país visam agora fazer a mesma coisa em resposta à brutalidade policial.

Ou seja, aqueles trabalhadores engajados na luta de classe contra a classe dominante os forçaram a mudar. Eles se uniram para lutar contra um inimigo de classe comum, com interesses fundamentalmente opostos aos seus. Nesses casos, os trabalhadores tinham força para impor algumas mudanças da classe capitalista, mas não tinham força para tirar do poder os capitalistas e suas estruturas racistas. Se quisermos realmente acabar com o racismo, teremos de construir poder suficiente para fazer exatamente isso.

Mas o racismo como um todo não pode ser desmontado sob o capitalismo, porque, como vimos acima, os capitalistas precisam do racismo para manter o poder. Mesmo se indivíduos capitalistas não tiverem preconceitos pessoais, o capitalismo precisa do racismo para manter o controle social, perpetuando as divisões dentro da classe trabalhadora. Isso torna impossível a verdadeira justiça racial sob o capitalismo.

A única coisa que pode superar totalmente o racismo é a classe trabalhadora ganhar poder suficiente para que os capitalistas não possam mais dominar um sistema de classes que é racista até o seu âmago. Isso só pode ser conseguido com a organização dos trabalhadores para lutar contra a opressão da classe capitalista. Assim como a classe trabalhadora como um todo terá de se libertar da exploração capitalista, os negros e pardos – o setor racialmente oprimido da classe trabalhadora – vão liderar nossa própria libertação do racismo. E, para fazer tudo isso, precisamos nos organizar.

A eliminação do racismo é um dos grandes imperativos morais que o mundo enfrenta. Eu combato o racismo como socialista porque, por mais difícil que seja a luta, só os socialistas têm uma resposta prática, do mundo real, para como realmente fazê-la acontecer. Junte-se a nós, nós temos um mundo a vencer!

Publicado originalmente em The Call

Veja também