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Fonte: Página 12 | 21/07/2020 | Tradução: Charles Rosa

Bolívia na encruzilhada

A direita boliviana (ou melhor, seus assessores norte-americanos e argentinos) leram as pesquisas minuciosamente. E chegaram à conclusão de que não existe possibilidade Jeanine Ãnez vencer, caso as eleições forem realizadas em 6 de setembro. E também concluíram que o MAS pode repetir um triunfo histórico.

Por isso, agitam o temor como bandeira: se os eleitores saírem de casa para votar, correrão o perigo de contrair o coronavírus. O último a se somar nesta cruzada foi Jorge Tuto Quiroga, o qual colocou o exemplo de seus octagenários para dizer que não os poria em perigo.

E Jeanine Añez começou a sonhar de novo. Suas orações poderia se tornar realidade e ela seguir sentada na cadeira presidencial. Mas tem um grande problema: com a equipe que conta não tem possibilidade alguma de continuar, pois a população perdeu todo o respeito, devido à corrupção e à incapacidade para enfrentar a crise gerada pelas duas pandemias: a saúde e a fome.

Por isso, requer um plano B. Quando começou a crise da Covid-19, os governistas estavam seguros de que ela lhes permitiria ter a aprovação cidadã, caso conseguissem passar satisfatoriamente pela prova. O que ocorreu foi o contrário.

Mas agora propõem um governo de Unidad Nacional, isto é a aliança de toda a direita, possivelmente sem Carlos Mesa, e claramente sem o MAS para poder “agora sim fazer as coisas bem”.

Por isso, seu ex-ministro da Presidência e homem de Luis Fernando Camacho, Jerjes Justiniano, propôs suspender as eleições e fazer um governo de unidade até 6 agosto de 2021.

A presidenta contempla então o mês de março como data das próximas eleições.

A fúria popular

Claro que para isso a ultradireita tem que superar dos grandes obstáculo: o primeiro é o MAS que evidentemente não aceitará o adiamento; e depois a indignação popular que quer a realização de eleições para ter um novo governo que enfrente com legitimidade a pandemia.

No primeiro caso, o oficialismo buscará conseguir os votos necessários no Congresso tratando de somar a parte da bancada do Movimiento al Socialismo. Já o presidente da Câmara de Deputados e militante do partido de Evo Morales, Sergio Choque, pronunciou-se no sentido de dar a prerrogativa ao Tribunal Supremo Eleitoral para este veja a melhor data para o agendamento das eleições.

O pedido de inabilitação da sigla de esquerda, ao ter supostamente Luis Arce revelado pesquisas internas, seria a carta de transação para que se aceite o adiamento com o limite de novembro de 2020. E quando se aproximarem os prazo do penúltimo mês do ano, haveria um novo adiamento, ou melhor ainda, uma nova convocatória para o próximo ano.

As cartas sobre a mesa

Mas o MAS também tem um coringa entre suas cartas. Embora o artigo 136 da Lei Eleitoral proíba a difusão de pesquisas, uma lei posterior sobre as Organizações Políticas não contempla esta variante; portanto, não haveria possibilidade de inabilitação dado que quem deve definir a contradição entre duas leis é o Parlamento e tem primazia a lei mais nova. Além disso, já se apresentou ante o Tribunal Constitucional Plurinacional a inconstitucionalidade do artigo 136 ao violar o direito à livre expressão.

A outra carta decisiva é a indignação de grandes setores sociais que estão esperando as eleições como a possibilidade de terminar um governo que qualificam como ditatorial.

Até o momento o Movimento al Socialismo tem sido o dique que evitou o transbordamento das mobilizações. Se adiarem as eleições, haverá problemas.

Claro que Jeanine e, sobretudo o homem por trás do trono, Arturo Murillo, juram que com a repressão e com o medo de se contagiar de Covid-19 é possível frear os desordeiros “nem que seja à bala”, o que Murillo já repetiu a quem quiser ouvir. Seu passado torna crível esta ameaça.

Como todo jogo de tronos este também é o de dissimulações. O Tribunal Eleitoral lançará sua proposta de ter a faculdade de mudar a data. Querem eleições em novembro, mas não querem dizer claramente (ou não podem), preferindo deixar a coisa numa margem que iria de 6 de setembro a 29 de novembro. A ultradireita quer eleições para o próximo ano, mas irá propor como primeiro passo novembro para depois postergar também este prazo.

De momento, a luta passará ao Congresso. Jeanine dará como oferenda aos deuses retirar sua postulação.

Camacho e Tuto já costuram ser parte do governo e de suas benesses, o MAS prepara as armas para o combate, mas e Mesa? Como sempre o ex-presidente joga nas duas pontas: para alguns ele diz que não é preciso mudar a data, mas publicamente diz que se a pandemia aperta haveria que adiar.

Numa recente entrevista, Arturo Murillo disse que em 6 de setembro haveria violência e que na Bolívia se jogava os próximos 30 anos. Parece que desta vez ele não mentiu.

Jaime Iturri Salmón é um jornalista boliviano.

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