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2016
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Quase todo mundo está surpreso com a vitória de Trump. Diz-se, inclusive que o resultado surpreendeu o próprio Trump. Desde distintas óticas, meio mundo está explicando como isso ocorreu. E, em todo o mundo se está falando das profundas divisões que esta eleição criará (ou já reflete?) no corpo político dos EUA.

Não acrescentarei uma explicação a mais, a uma longa lista de análises para não cansar o leitor. Somente quero me concentrar em duas questões: quais são as consequências da vitória de Trump (1) no interior dos EUA, e (2) o que se passará com seu poder no restante do mundo?

Internamente, os resultados, não importa como sejam medidos, moveram os Estados Unidos, de maneira eloquente à direita. Importa pouco se Trump perdeu no voto popular nacional. Importa pouco que Hillary poderia ter ganhado as eleições, caso obtivesse (em três estados) 70 000 votos a mais, algo em torno de 0,09% do total de votos.

O que importa é que os republicanos ganharam o que se chama a “trifeta” – o controle da Presidência, o controle de ambas as Câmaras do Congresso, e do Tribunal Supremo. E os democratas chegarão a recuperar o Senado e, inclusive a Presidência em quatro ou oito anos, os republicanos dominarão, por muito tempo, a maioria que têm na corte superior.

No entanto, os republicanos estão divididos sobre questões muito importantes. Isso se fez evidente na semana seguinte às eleições. Trump já começou a mostrar o lado pragmático de suas prioridades: criar mais postos de trabalho, reduzir os impostos (em alguns setores) e salvaguardas os aspectos mais populares da Lei de Assistência Sanitária (Obamacare).

O “establishment” republicano (um “establishment” bastante mais à direita) tem outras prioridades: a destruição do Medicare, outro tipo de reforma tributária, e fazer retroceder o social-liberalismo ( direito ao aborto e matrimônio homossexual).

Resta ver se Trump pode ganhar a batalha contra Paul Ryan (figura chave da direita no Congresso), ou se Paul Ryan consegue fazer retroceder a Trump. A figura mais importante nesta luta parece ser o vice-presidente Mike Pence, que tem se posicionado como o verdadeiro número dois no gabinete presidencial (igual a Dick Cheney).

Pence sabe bem que os republicanos do Congresso, são ideologicamente próximos a Paul Ryan, mas são politicamente leais a Trump. Foi ele quem elegeu a Reince Priebus, como chefe do staff de Trump, preferindo-o a Steve Bannon. Priebus implica unir aos republicanos, enquanto Bannos significaria arremeter contra os republicanos que não estão cem por cento de acordo com um discurso de direita. A Bannon lhe deram um prêmio de consolo como conselheiro de interior e, é muito difícil que vá ter poder real.

O resultado é que nesta luta intra-republicana, a política dos EUA tem girado mais à direita. Por outro lado, possivelmente, o Partido Democrata se reorganizará como um movimento mais à esquerda e mais populista com o objetivo de ser capaz de ganhar as próximas eleições. Isso também está para ser visto. Mas hoje a vitória eleitoral de Trump é uma realidade.

Agora, passemos desde a arena interna – na qual Trump ganhou e tem poder real – à arena internacional na qual praticamente não tem nenhum poder. Ele utilizou como lema de campanha “fazer grande os Estados Unidos novamente”. O que disse uma e outra vez foi que, se fosse presidente, se asseguraria que outros países respeitarão (ou seja, obedecerão) aos Estados Unidos. Com efeito, fez alusão a um passado no qual os Estados Unidos era “grande” e disse que ia recuperar esse passado.

O problema é muito simples. Nem ele nem nenhum outro presidente – seja Bill Clinton ou Barack Obama (tampouco foi possível na era Reagan) – podem impedir a crescente diminuição da capacidade hegemônica dos Estados Unidos. Se alguma vez dominou parte do mundo, foi a partir de 1945 e até parte da década de 1970. No entanto, desde então, a capacidade dos EUA para conseguir que outros países façam o que pretende segue diminuindo de maneira constante.

O descenso é estrutural e não é algo que o poder de um presidente dos EUA possa frear. Evidentemente que os EUA seguem sendo uma força militar muito poderosa. E, caso faça mal uso desse poder militar, pode causar muitos danos ao mundo. Obama foi sensível a esse potencial dano, seus vacilos foram prova desse temor. Trump foi acusado durante toda a campanha eleitoral de não entender isso e, portanto, ser um portador perigoso do poder militar.

Contudo, enquanto causar danos sempre será possível, para o governo dos EUA fazer o que quiser agora parece praticamente impossível. Ninguém, e me refiro a ninguém, vai seguir hoje o exemplo dos EUA se acredita que seus próprios interesses estão sendo ignorados. Isso é certo não apenas na China, Rússia, Irã e, por óbvio, na Coreia do Norte. Também é certo para o Japão e a Coreia do Sul, Índia e Paquistão, Arábia Saudita e Turquia, França e Alemanha, Polônia e os estados bálticos, inclusive para antigos aliados, com privilégios, como Israel, Grã-Bretanha e Canadá.

Estou bastante seguro que Trump ainda não se deu conta disso. Ele vai presumir de vitórias fáceis, como pôr fim aos acordos comerciais. Utilizará isso para demonstrar sabedoria de sua postura agressiva. Mas se trata de fazer algo sobre a Síria (nada em realidade) pronto se desenganará de seu aparente poder. É muito pouco provável que mude a nova relação diplomática com Cuba. Pronto chegará a se dar conta que não deve desfazer o acordo com o Irã. Quanto à China, os chineses parecem pensar que podem chegar a melhores acordos com Trump do que com Hillary Clinton.

Portanto, temos um governo de direita nos EUA, num sistema-mundo caótico, com um garrote econômico sobre a maioria da população mundial e o protecionismo como um tema central em quase a totalidade dos países.

Existe algo de novo? De nenhum modo, nem nos Estados Unidos, nem no sistema-mundo.

O que há, é que vai continuar o combate sobre a direção que tomará o futuro do sistema-mundo (ou os sistemas-mundo).

Original: Rebelion.org

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