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A perseguição aos imigrantes é hoje um dos debates centrais na política dos Estados Unidos. No próximo domingo (14/07) se aprofundará a ação dos raids policiais, ou seja, os operativos de perseguição aos imigrantes indocumentados promovidos pela gestão Trump através do ICE (Immigration and Customs Enforcement, agência federal ligada ao Departamento de Segurança Interna). Segundo recente estudo das universidades Massachusetts e Yale, os indocumentados representam um universo de mais de 22 milhões nos EUA, pessoas que trabalham, estudam, pagam impostos e muitas vezes tem uma vida construída há décadas no país.

As declarações de Donald Trump prevêem a deportação de mais de um milhão de indocumentados nos próximos meses, perseguidos pelos agentes do ICE em suas casas, locais de trabalho e nas ruas. O absurdo da violência estatal fica evidente nas práticas desta agência que utiliza métodos como policiais descaracterizados, intimações judiciais falsas e até mesmo prisões realizadas após audiências realizadas para outros fins (como infrações de trânsito e outras questões menores). Os raids estão neste contexto, utilizados para prender indocumentados e espalhar o medo da deportação entre as comunidades imigrantes.

Os trabalhadores e trabalhadoras presos pelo ICE são então separados de suas famílias e enviados para campos de concentração onde aguardam a deportação em péssimas condições. Completamente lotados e sujos, sem comida suficiente nem o mínimo de higiene, estes campos se espalham por todo país e hoje representam uma face cruel do sistema imigratório. São mais de 54 mil indocumentados presos hoje, incluindo centenas de crianças, e durante aadministração Trump já morreram 24 imigrantes nestes campos(inclusive 7 crianças nos últimos meses). Apesar do tempo médio de detenção ser de dois meses, existem casos de prisões por mais de 4 anos. No ano fiscal de 2018, mais de 256 mil imigrantes foram confinados nestes campos.

Por trás desta violência existe um negócio lucrativo. Entorno de 60% destes campos são geridos pela iniciativa privada e, em 2017 somente uma destas empresas (a GEO Group) recebeu mais de 184 mil dólares do governo. Ao mesmo tempo, está empresa paga apenas 1 dólar por dia de trabalho aos prisioneiros, o mesmo o valor de 1 minuto de ligação telefônica da prisão para o México ou menos da metade do valor de um tubo de pasta de dente vendido aos imigrantes detidos.

Apesar do discurso estridente de Trump, o problema da perseguição aos imigrantes não é novo. No ano fiscal de 2012, durante a administração Obama, mais de 400 mil imigrantes foram deportados, enquanto em 2018 o número esteve próximo dos 256 mil. Ao longo de seu governo, o presidente democrata deportou mais de 2 milhões de indocumentados, demonstrando que os ataques e violações contra as comunidades imigrantes não é exclusividade do Partido Republicano. É nítida a contradição entre a valorização do trabalho imigrante e a perseguição sistemática a estes mesmos trabalhadores, reproduzindo de maneira evidente a cínica forma como o trabalho humano é tratado no capitalismo.

A retórica do medo é parte importante desta violência sistemática. Os indocumentados não podem nem mesmo fazer visitas curtas à seus países de origem, acompanhando de longe a vida e a morte de entes queridos em devastadores dramas familiares. Muitos deles chegaram ainda crianças aos EUA (os chamados Dreamers), crescendo em um país diferente, sofrendo enorme preconceito e tendo que construir uma identidade de exílio em meio à opressão e ao racismo do império.

Mas é justamente desta violência que parece surgir o futuro. O movimento dos indocumentados é marcado pelo combate ao medo promovido pelo Estado, e o slogan Undocumented, Unafraid, Unapologetic (Indocumentado, Sem Medo, Sem Pedir Permissão) parece simbolizar bem o espírito de resistência presente principalmente entre os jovens. Da mesma forma está a hashtag #powernotpanic (Poder e não Pânico) como outra expressão de moralização desta luta na qual a derrota não é um cenário aceitável para aqueles que a enfrentam.

Os níveis de controle e de violência estatal vividos nos Estados Unidos são enormes, mas o potencial de futuro da luta das comunidades imigrantes também é gigantesco. Mesmo combatendo forças poderosas e sofrendo ataques duros, a classe trabalhadora indocumentada é nitidamente parte central da lutas de classes norte-americana e, mesmo que sofra os piores abusos, já não pode voltar atrás.

Para saber mais:

https://www.freedomforimmigrants.org/
https://www.nysylc.org/

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