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17/10/2019 – Fonte:  https://leilashami.wordpress.com/2019/10/14/on-the-turkish-offensive-on-north-eastern-syria/Tradução: Charles Rosa

Nos últimos dias, mais de 130 000 residentes no nordeste da Síria fugiram para defender suas vidas, buscando desesperadamente um lugar segura. Dezenas de civis morreram por causa dos bombardeios e dos assassinatos cometidos por forças turcas e milícias aliadas. Em meio ao caos, prisioneiros do Estado Islâmico fugiram dos campos de detenção e neste momento estão livres; muitos deles são estrangeiros, inclusive algumas crianças, cujos respectivos Estados se negaram a se responsabilizar por seus compatriotas.

A invasão turca recebeu a luz verde de Trump (e provavelmente da Rússia) e segue ao abandono por parte dos EUA de suas aliadas, as Forças Democráticas Sírias (dominadas pela milícia curda), com as quais colaborou na luta contra o Estado Islâmico. Não é a primeira vez que os EUA abandonam seus aliados na Síria, e não é provável que os aqueles que sofrem suas consequências esqueçam facilmente esta traição.

A operação militar turca persegue dois objetivos. Espera esmagar a autonomia curda no norte, que em grande parte se encontrava desde 2012 sob o controle do Partido da União Democrática (PYD), associado ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), ao que há tempos o Estado turco considera seu inimigo interno, e criar uma zona de amortecimento para a qual trasladar os refugiados sírios, que enfrentam uma crescente hostilidade e xenofobia na Turquia. Posto que muitos dos refugiados são árabes e seriam trasladados a uma zona na qual residem outras minorias, curdas ou não, esta medida daria lugar provavelmente a uma mudança demográfica, que atualmente é um aspecto fundamental da tragédia síria. Daí que grupos de oposição sírios aliados à Turquia lutem por implementar os planos turcos, que não guarda semelhança alguma com a revolução síria pela liberdade e pela dignidade que começou há oito anos.

Os habitantes da região têm bons motivos para temer uma ocupação turca. A cidade de Afrin, de maioria curda, que no ano passado caiu em mãos da Turquia e suas forças aliadas, senta um precedente terrível. Muitas pessoas foram obrigadas a abandonar seus lares e lhes fpi impedido voltar a eles, houve saques generalizados das propriedades abandonadas, assim como detenções violações e assassinatos.

Dado o temor da população curda da Síria a operações de limpeza étnica por parte das forças turcas, e posto que nenhum aliado quer defendê-la, o PYD apenas tinha como opção negociar o retorno do regime sírio, pondo fim ao experimento de autonomia curda que havia comportado importantes avanços para a população ao implementar muitos de seus direitos, há muito tempo negados pelo regime arabista. Provavelmente isso não é mais que uma questão de tempo. Quando o regime cedeu o poder ao PYD, é provável que levou em conta três fatores: que esta cessão de poder faria com que os curdos deixassem de combater o regime, com o que este podia concentrar seus recursos militares em outras frentes; que fragmentaria e portanto debilitaria a oposição síria a Assad segundo divisórias sectárias; e que se o PYD acumulava demasiado poder, a Turquia interviria para impedir sua expansão, permitindo assim ao regime recuperar o controle.

Diz-se que o acordo assinado entre o regime e as Forças Democráticas Sírias (FDS), dominadas pelo PYD, inclui uma garantia dos direitos e a plena autonomia do Curdistão. Entretanto, é improvável que o regime sírio aceite finalmente a autonomia curda, como deixou claro repetidamente em declarações públicas. Em outras partes da Síria, todas as promessas feitas pelo regime nos respectivos acordos de reconciliação não valeram nem o papel em que estava escritas. As ativistas contrárias ao regime, tanto árabes como curdas, correm agora o risco de ser detidas e de morrer sob tortura.

Os combatentes das FDS tampouco estão seguros. Há apenas alguns dias, o vice-ministro de Exteriores da Síria, Faisal Maqdad, declarou que tais forças “traíram seu país e cometeram crimes contra o mesmo”. Enquanto muitos curdos, abandonados pelos EUA, podem se sentir mais seguros sob Assad que sob Turquia, alguns civis árabes que vivem em zonas controladas pelas FDS, como Deir Al Zour e Raqqa, temem sobretudo a reconquista pelo regime e as milícias iranianas e se sentem mais seguros sob a proteção da Turquia. A população síria cai em desespero e sua sobrevivência depende de potências estrangeiras. Jornalistas estrangeiros igualmente ameaçados pelo regime fugiram da Síria, com o que as atrocidades podem ser cometidas fora da vista dos meios internacionais.

As decisões adotadas hoje são fruto das maquinações de potências estrangeiras e é a população civil síria quem pagará o preço. As atuais lutas de poder entre Estados manipulam as divisões étnicas, dando lugar à proliferação dos sectarismos, que assolarão a Síria num futuro previsível. A negativa de Assad a renunciar quando a população síria assim exigiu foi o que conduziu a este banho de sangue, junto com a incapacidade reiterada da comunidade internacional de proteger a população síria frente ao massacre e a dos líderes da oposição curdos e árabes de deixar de lado seus interesses particulares e promover a unidade dos que aspiram a se livrar do regime autoritário. Um regime que esmagou um por um, por todo o país, a totalidade dos experimentos democráticos de autonomia comunitária, e a comunidade internacional parece querer normalizar as relações com este regime, que se aferrou ao poder às custas de organizar massacres em escala massiva. O que ocorre hoje é um desastre, não somente para a população curda, mas também para todas as pessoas sírias livres.

Outra vez, a situação na Síria explicitou a quebra moral de setores da esquerda. Muitos do que protestam ante a invasão turca no nordeste da Síria não se mobilizaram para condenar o assalto em curso das forças russas e do regime sobre a cidade de Idlib, onde três milhões de civis vivem em estado de terror permanente. De fato, não reconhecem que durante anos a população síria foi massacrada pelas bombas, armas químicas e tortura a escala industrial nas mãos do regime de Assad. Alguns dos que reclamam que se declare zona de exclusão aérea para proteger a população civil curda dos bombardeios aéreos difamaram em seu momento os sírios de outros lugares que reclamavam essa mesma proteção, tachando-os de belicistas e de agentes do imperialismo. Uma vez mais, a solidariedade parece depender não tanto da indignação ante os crimes de guerra, como de quem é o perpetrador e quem é a vítima. A vida da população síria é prescindível na batalha em torno das narrativas e dos grandes marcos ideológicos.

A tragédia síria é uma mancha na consciência da humanidade

14/10/2019


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