|
images (12)

Fonte: Socialist Worker – 17/02 | Tradução: Charles Rosa

Ainda é demasiado cedo para afirmar o quão grave será a epidemia Covid-19, como agora se conhece a última epidemia de coronavírus.

O mais recente surto já matou muito mais pessoas que a pandemia SARS (2002-3), causada por outro coronavírus.

Entretanto, uma das únicas certezas é que o Covid-19 vem atuando como uma radiografia que revela a estrutura mutável da economia mundial.

O SARS também se originou na China, mas a economia chinesa é agora quatro vezes maior que em 2002-03.

O Covid-19 conseguiu paralisar a segunda maior economia do mundo. O governo chinês decretou em fevereiro que a população voltasse a trabalhar depois de um longo feriado de Ano Novo. Porém, em 12 de fevereiro, o tráfego de passageiros na China caiu em 85% em comparação com o mesmo dia do ano passado.

O chefe da Câmara de Comércio da União Europeia na China estima que o crescimento econômico no primeiro trimestre de 2020 cairá cerca de 2%. Isso é um terço da taxa de crescimento de 6,4% no mesmo trimestre do ano passado.  

China é o maior exportador mundial e o maior importador de matérias primas. Portanto, uma desaceleração terá um grande impacto na oferta e demanda mundial de bens e serviços.

Os comerciantes chineses estão cancelando seus pedidos de produtos tão diversos como o cobre e o gás. A China está começando a importar frangos vivos dos Estados Unidos para compensar os animais que não podem ser alimentados graças às restrições de viagem.

Porém, é no lado da oferta que o impacto é mais grave.

Ascensão

Ascensão da China ao posto de maior economia manufatureira do mundo foi parte de uma reestruturação global da produção. As corporações transnacionais do norte desenvolveram redes globais de produção que subcontratam montagens intensivas em mão de obra, particularmente no leste e sudeste da Ásia.

O exemplo clássico é a firma taiwanesa Foxconn, que emprega mais de um milhão de trabalhadores pra montar produtos da Apple na China.

O governo chinês está tratando de melhorar a economia tecnologicamente. Quer que as atividades de alto valor como pesquisa e desenvolvimento – as quais as corporações transnacionais do Norte mantêm em suas regiões de origem – fiquem na China.

No presente momento, a China produz cerca de 30% das exportações mundiais de componentes elétricos e eletrônicos. As principais economias asiáticas, junto aos Estados Unidos, também dependem em grande medida das exportações chinesas de maquinaria e equipes de transporte.

Segundo o jornal Financial Times, a província de Wuhan, onde se originou o Covid-19 “se tornou um centro para as crescentes exportações de peças e acessórios para carros da China, um setor que triplicou na última década, enquanto as exportações de motores e motores subiram quatro vezes.

A indústria manufatureira já estava em crise mundialmente.

Mas a indústria automobilística também é vulnerável graças a sua dependência das cadeias de suprimentos globais.

Como destacou um colunista do Financial Times, as grandes montadoras de automóveis já estavam com graves problemas. O “Dieselgate”, o futuro incerto do motor de combustão interna, o surgimento dos veículos elétricos, as barreiras comerciais do Brexit… e as guerras comerciais travadas pela Casa Branca.

“Tudo isso contribuiu para a recessão  industrial na Europa e na América”.

O Covid-19 pode abrir uma nova frente na guerra comercial entre EUA e China. A cadeia de suprimentos médicos dos EUA.  Depende dos provedores chineses de medicamentos acabados, componentes de medicamentos e suprimentos médicos, como as máscaras faciais, que agora têm tanta demanda.

“Este é um alerta para uma questão que está latente há muitos anos, mas é fundamental para a segurança econômica e nacional dos EUA”, disse o consultor comercial de Donald Trump, Peter Navarro, na semana passada.

Portanto, o Covid-19 não mostra apenas os efeitos da globalização – nossa vulnerabilidade física à propagação planetária de doenças e dependência econômica das cadeias de suprimentos globais.

Ele pode levar a esforços adicionais no que está sendo chamado de “des globalização” – devolvendo a produção às regiões de origem das economias avançadas. Finalmente, lança mais luz sobre a condição doentia do capitalismo contemporâneo.

Veja também