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Agora, meio ano depois do início da era COVID-19, e meses desde o início dos lockdowns nos EUA, ainda sabemos muito pouco sobre como o vírus funciona, além de que ambientes internos mal ventilados (condições de trabalho extremamente comuns), são de longe os mais arriscados. Dados simples, como taxas de mortalidade, permanecem indefinidos, sendo a única garantia aquela de que estamos subestimando os mortos. Esta incerteza torna quase impossível prever quando devemos esperar uma recuperação econômica.

Recuperação quando?

Não há dúvida de que a situação é incrivelmente ruim. Em uma entrevista surpreendentemente honesta, Robert Redfield, diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, espera que os surtos de COVID-19 voltem no final deste ano. Uma avaliação ainda mais precisa pode ser que, ao contrário de outros países, o primeiro surto nunca parou. Os estados que começaram a reabrir estão vendo índices recordes de hospitalização. E, na ausência de ação federal, quase nada temos feito para melhorar a nossa capacidade de combater a pandemia.

Poucos economistas, portanto, ainda colocam qualquer hipótese de uma pequena “recuperação em V”, na qual a dramática crise econômica é acompanhada por um rápido retorno à normalidade. Mais comum é a visão de que teremos uma recuperação em forma de U ou W, onde a recessão é prolongada, com possíveis recuperações parciais e quedas, antes de finalmente retornarmos aos níveis de crescimento pré-crise. A visão mais pessimista é a da recuperação em forma de L, onde não há retorno aos níveis pré-crise e nós simplesmente nos ajustamos a um novo normal.

É certamente com isto em mente que Jerome Powell, Presidente do Federal Reserve, alertou que talvez não vejamos a recuperação econômica até o final de 2021. Os executivos corporativos também deixaram de esperar uma rápida recuperação para uma recessão mais puxada. Um estudo da Escola de Saúde Pública de Harvard prevê que podemos ter um distanciamento social intermitente até 2022, sugerindo que mesmo essas perspectivas econômicas mais pessimistas estão subestimando a duração da crise.

Apesar desses avisos, o mercado acionário se recuperou em grande parte desde o choque inicial de medo, quando foram decretados os lockdowns. Se a economia real ainda está no fundo do poço, o que isso dará?

É útil ter em mente o que são de fato as ações. São reivindicações legais sobre lucros futuros. A classe investidora está se agarrando à crença de que veremos uma rápida recuperação em forma de V, uma vez que as empresas possam reabrir. O que eles sabem que nós não sabemos?

Fora dos círculos internos da verdadeira elite , não muito. Como Doug Henwood argumentou convincentemente anos atrás, os acionistas como um grupo estão quase universalmente fora de sua compreensão e incapazes de julgar efetivamente o desempenho corporativo passado, atual ou futuro. Na maioria das vezes eles operam como um rebanho, o que os torna bastante fáceis de manipular. No entanto, não é preciso ser economista para reconhecer que, para muitas das maiores indústrias dos EUA, as empresas não têm mais um modelo de negócios.

Mesmo as recuperações mais conservadoras em forma de U e W parecem otimistas quando consideramos que a economia dos EUA nunca recuperou sua taxa de crescimento após o crash de 2008, ou o crash de 2000, aliás. Na verdade, estamos enfrentando uma longa recessão, de uma forma ou de outra dentro de uma recuperação, em forma de L já existente. Isto provavelmente não é surpresa para a maioria dos trabalhadores que efetivamente não viram nenhum ganho na última década.

O que significa uma longa recuperação para os mercados financeiros, que constituem o alfa e o ômega do bem-estar econômico americano no imaginário popular? A versão resumida é que vão ter que passar por outro abismo. É difícil dizer quando, já que até certo ponto depende de quanto tempo os investidores continuam se iludindo. O Federal Reserve está fazendo de tudo para adiar esse dia de acerto de contas, incentivando a especulação contínua, fornecendo essencialmente dinheiro gratuito e sem limites ao setor financeiro.

Em algum momento, os investidores terão de enfrentar o fato de que as empresas em que estão realmente investindo não estão ganhando dinheiro e serão incapazes disso por algum tempo. Quando isso acontecer, haverá apenas mais incentivo para que Trump, cuja reeleição depende em grande parte do estado (percebido) da economia, coloque a culpa em outro lugar.

Haverá empregos para os quais voltar?
Entre aqueles que esperam uma rápida recuperação, todas as esperanças estão nos norte-americanos, liberando a demanda dos consumidores no momento em que eles tiverem tudo esclarecido. O aumento dos benefícios para desempregados e dos cheques únicos incluídos na Lei Federal CARES resultou em um aumento da renda pessoal, um indício de nossas leis de salário mínimo criminosamente baixo. Mas com quase 1 em cada 4 trabalhadores desempregados, e sem garantia de extensão dos benefícios, há sinais de uma iminente “avalanche de despejos”, uma vez que as moratórias terminam. Os bancos de alimentos estão sobrecarregados. O número de portadores de hipotecas em atraso nos pagamentos dobrou entre março e abril, três vezes o recorde anterior estabelecido em 2008.

Os que apostaram em uma rápida recuperação declararam vitória quando o relatório do desemprego de maio mostrou que 2,5 milhões de empregos foram criados. Em tempos normais isso seria uma adição massiva, mas o buraco econômico em que nos encontramos é tão profundo que 2,5 milhões de empregos equivalem apenas a cerca de 10% das perdas recentes. Será necessário um apoio governamental mais agressivo para estabilizar a renda, especialmente porque as demissões se estenderam além dos setores iniciais de baixos salários.

Se as pessoas se sentem financeiramente seguras ou não, está ficando mais claro que “reabrir” não significa tanto se as pessoas não se sentem seguras saindo em público. Particularmente naquelas indústrias mais atingidas, como a de hotelaria, vai demorar muito tempo até que haja algo como “normal”. A questão mais provável será até que ponto eles ainda são capazes de operar?

As companhias aéreas são um dos exemplos mais extremos. Como resultado da intensa pressão da Associação de Comissários de Bordo, as empresas aéreas conseguiram um acordo melhor do que qualquer um que não possua um banco na primeira rodada de resgates financeiros. Essa linha de salvação exigia que as empresas aéreas não demitissem mais de 10% dos funcionários até setembro. Mas se não fosse óbvio na época, deveria ser agora: as empresas aéreas vão anunciar demissões em massa no dia em que esse acordo expirar.

As viagens aéreas ficarão prejudicadas durante anos à medida que as conferências forem canceladas, reuniões remotas se tornarem a norma, e as férias forem mais perto de casa para aqueles que puderem pagar. Mesmo em bons momentos, as companhias aéreas vão à falência todos os anos. É muito caro comprar e manter aeronaves, principalmente quando não se tem clientes. Mesmo com subsídios federais maciços, é provável que vejamos grandes mudanças no setor aéreo. Essas dinâmicas vão afetar toda a indústria de viagens e hotelaria que gera renda crucial para milhões de trabalhadores ao redor do mundo.

Da mesma forma, o varejo está sendo rapidamente remodelado. Os shoppings e as lojas de departamento, que serviram como suas âncoras e já estão lutando muito antes da pandemia, estão praticamente mortos e não vão voltar. Com a exceção das mercearias, todas as vendas de das lojas tradicionais despencaram. Isso é aterrorizante, considerando que 15 milhões trabalhavam no varejo a partir de fevereiro.

A Amazon ganhou muita atenção como a beneficiária óbvia do aumento maciço das compras online. Mas enquanto suas vendas cresceram, sua participação de mercado caiu. Tornou-se evidente que ser a maior varejista online é diferente de ser competente para lidar com a distribuição para todo o país. Embora poupados de grande parte do desprezo que a Amazon tem recebido recentemente, a Target e o Walmart têm aumentado rapidamente suas vendas e participação de mercado no varejo online. Ambos têm duas vantagens cruciais sobre outros varejistas físicos que estão falindo: eles já estavam investindo em capacidade de comércio eletrônico pré-pandêmico e ambos são proprietários da maior parte de seus imóveis, ao invés de alugá-los.

Este segundo elemento merece uma reflexão. Como com a crise como um todo, a elite financeira gostaria que pensássemos que a pandemia é a única responsável por este apocalipse do varejo. A realidade é que uma das táticas favoritas de Wall Street, a compra alavancada de private equity, tem deixado as empresas extremamente vulneráveis à crise. O private equity – atualmente o grupo mais badalado e o mais odioso de Wall Street – comprou faixas de varejistas, vendeu seus ativos imobiliários por um dólar rápido e forçou a empresa a arrendá-los de volta. O que antes era um ativo, agora é uma despesa. Isso torna infinitamente mais difícil para as lojas manterem a cabeça acima da água em uma recessão.

Crise pendente para os governos estaduais
Um efeito da repercussão do colapso do varejo, combinado com a menor demanda por espaços à medida que as empresas se ajustam ao trabalho de escritório a partir de casa, é um buraco ainda maior nos orçamentos estaduais e locais. A maioria dos orçamentos municipais depende fortemente dos impostos sobre vendas e utilização dos imóveis. Coletivamente, os estados estão enfrentando déficits orçamentários nos trilhões. A Califórnia já está projetando um buraco de 54 bilhões de dólares.

Para colocar isso em perspectiva, trata-se de cerca de um quarto do seu orçamento atual. Salvo intensa pressão organizada vinda de baixo, sabemos como os funcionários do governo nascidos e criados para cortar os serviços vão reagir. Agora que os bancos receberam seus trilhões, ouvimos mais uma vez que o déficit está “fora de controle”.

Para a maioria dos estados, a maior despesa é o fundo de pensão dos funcionários públicos. No melhor dos tempos, há incentivos para os estados subfinanciarem as aposentadorias. Desde que haja o suficiente para cobrir despesas agora mesmo, você pode dar um pequeno pontapé. Para compensar o subfinanciamento do Estado, esses fundos têm se voltado cada vez mais para Wall Street, particularmente para o private equity, para compensar a diferença. Quem se importa se as contribuições do Estado estão caindo, quando você pode aumentar o retorno do seu investimento para compensá-lo? Mas isso é menos viável agora do que nunca. Os fundos de pensão “perderam uma mediana de 13,2%” nos primeiros três meses do ano e os estados estão aprendendo que aqueles que vivem pelo mercado, morrem pelo mercado.

Enquanto os orçamentos estaduais estão em colapso e os fundos de pensão dos trabalhadores já subfinanciados estão sendo destruídos pelo mercado, o Líder da Maioria Republicana no Senado Mitch McConnell está “corajosamente” sugerindo que os estados declarem falência para se livrarem das obrigações trabalhistas excessivamente indulgentes dos trabalhadores

A classe proprietária tem praticado bem este roteiro.

A narrativa da imprudência financeira municipal foi posta em trágico uso no desmantelamento da classe trabalhadora de Nova York na década de 1970. Mais recentemente, vimos isso na destruição de Detroit. Atualmente, a maioria dos governos já se tornou tão disciplinada pelo mercado que nem sequer considera implementar os tipos de serviços públicos que de fato beneficiariam os trabalhadores, por medo de serem denunciados como fiscalmente irresponsáveis e isolados dos mercados de crédito.

Socialistas e militantes trabalhadores devem lutar para reverter esse contínuo deslocamento para a austeridade, cujos defensores só voltarão a crescer a medida que os déficits orçamentários aumentarem. Embora isto obviamente exija ignorar os gritos dos falcões deficitários, temos de ter cuidado para não cairmos no pensamento de que as dívidas públicas não importam em nada. Dito de forma simples, os governos não deveriam estar pedindo dinheiro emprestado aos ricos, deveriam estar tributando. Uma tributação mais progressiva, através de taxas dramaticamente mais altas sobre grandes rendimentos e riquezas, daria aos governos mais recursos não apenas para fornecer serviços públicos extremamente necessários, mas também para assumir um papel maior na garantia de que os frutos do nosso trabalho sejam reinvestidos na produção socialmente benéfica. Tributar os ricos é tanto sobre poder como sobre recursos.


É claro que esta crise é muito maior do que qualquer um no governo queira admitir e nós não estamos nem perto do fundo. No entanto, é importante ter em mente que isto não é, de forma alguma, um golpe fatal para o capitalismo. Uma das principais descobertas de Marx é que as crises não são apenas de se esperar, mas parte necessária do capitalismo. Em seus mais de 400 anos de história, o capitalismo sobreviveu a crises após crises. As pessoas não se organizam espontaneamente e não há nenhuma inevitável virada à esquerda perante o colapso social.

Se vamos reafirmar o controle democrático sobre a economia, necessário para combater programas de austeridade, precisamos de sindicatos militantes e de políticos classistas, apoiados pelo poder político de classe trabalhadora independente. Nada mais nos dará a força ou a legitimidade popular de massa necessária para enfrentar o capitalismo de frente.

Via The Call

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