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FONTE: The Guardian | 04/06/2020 | TRADUÇÃO: Charles Rosa

Os protestos eclodiram em todo o país em resposta ao assassinato policial de George Floyd em Minneapolis no final de maio, e os especialistas em saúde pública advertem sobre um possível aumento das infecções por Covid-19. “Existe a preocupação de que os protestos poderiam ser eventos super difusores”, disse Kim Sue, um médico que vem participando das manifestações.

Entretanto, muitos especialistas em saúde, conscientes do risco, dizem que ainda apoiam os protestos, o que sugere que a violência policial é seu próprio tipo de epidemia. Falamos com três deles.

É seguro protestar durante una pandemia?

Georges Benjamin, médico: há muitas pessoas que sentem firmemente que o racismo e a violência policial chegaram a ponto de que o cálculo do risco mudou. E para que ao menos tenham que sair e deixar que o público e a polícia saibam que é inaceitável. Sou afro-americano e, portanto, para mim, o risco de ser assassinado a tiros por um oficial de polícia pode, em algumas comunidades, ser muito maior que o risco de morrer de Covid-19. A perspectiva de saúde pública tem a ver com o risco. E creio que é uma falsa disjuntiva. Quero dizer, é certo que se todos voltarem a sair às ruas, vamos ver picos de contaminação. Mas ao final do dia, ainda estamos vendo uma epidemia de violência policial que parece não terminar.

Kim Sue, médica: todo mundo está fazendo estes cálculos de custo-benefício por si mesmos, em função do que percebam como seus próprios fatores de risco. Não há uma solução fácil para isso. Por isso, é realmente importante ter conversas sobre o que as pessoas podem fazer para minimizar seu risco.

Como aplicar esse cálculo a si próprio?

Sue: Muitos de meus amigos estão imunocomprometidos e do contrário estariam (protestando), mas realmente não podem agora. Vejo isso como uma dádiva que posso estar fisicamente presente para as pessoas que não podem assumir esses riscos.

Lauren Powell, epidemiologista:  Protestei de uma maneira diferente. Me mantive solidária à margem e cantei junto com os manifestantes quando passavam, tinha meu punho de “black power” levantado e gravei para minha família que não podia estar fora. Levava máscaras duplas e luvas, assim me sentia mais cômodo. Há um espectro de protestos.

Como vocês conciliam os protestos com a mensagem de que ser um bom cidadão durante uma pandemia significa ficar em casa?

Powell: É uma perspectiva privilegiada, afirmar que somente sou um bom cidadão se ficar em casa. Na raiz disso está o racismo que perpetua as desigualdades da Covid-19, o que provocou o assassinato de George Floyd, o que faz a polícia usar uma força excessiva contra os manifestantes pacíficos. É o racismo que tem um líder nacional que potencialmente desata a militarização no país. 

Como profissional da saúde pública, reconheço os desafios de uma pandemia, mas este é um momento no qual muitos de nós não temos o privilégio de nos distanciar. Nunca houve um momento conveniente para protestar.

Qual conselho vocês dariam às pessoas que querem protestar?

Benjamin: Saiam em uma multidão menor, usem uma máscara facial, levem desinfetante contigo. Evitem dar as mãos, tentem distanciar-se fisicamente. Limitem o tempo que ficam fora de casa. Obviamente, caso manifeste algum sintoma de Covid-19, não saiam.

Protestos virtuais são certamente menos arriscados que caminhar nas ruas. Mas [protestar] é algo que muitas pessoas sentem que é preciso fazer, e nós, a Associação Estadunidense de Saúde Pública, apoiamos seu direito a fazer isso.

Powell: Caso estiver com máscara, mantenha-a no rosto o tempo todo. Estou vendo que alguns manifestantes tiram as máscaras para cantar, e esse é o momento em que mais é necessário usá-la por causa da possível transmissão de Covid através de gotas.

Sue: O Covid é facilmente transmitido em ambientes compartilhados e internos – por isso, se você faz parte de uma família, deve haver um entendimento coletivo e um acordo sobre os riscos e benefícios de sair.

Recomendo que o povo não esteja ali todos os dias. Desde o ponto de vista da transmissão de enfermidade, recomendaria que as pessoas talvez compareçam uma vez por semana e se organizem em casa e online.

Vocês se preocupam com uma nova onda de infecções por Covid-19?

Sue: Sabemos que é possível a transmissão assintomática. Existe a preocupação de que os protestos possam ser eventos muito dispersos.

Benjamin: Deveríamos antecipar que mais se infectarão com a enfermidade.

Um artigo recente sugeriu que os manifestantes que conscientemente se colocam em risco de contrair coronavírus em meio à escassez médica deveriam renunciar aos cuidados. Esta ideia deveria ser aplicada aos manifestantes contra a violência policial?

Sue: O atendimento médico é um direito. Não me importa de qual evento você participa, qualquer que seja o evento. Se algo lhe sucede, nos ocupamos de você sem importar o quê.

Existem práticas policiais que aumentam o risco de transmissão?

Sue: Muitos agentes policiais da cidade de Nova York nem sequer portam máscaras.

Powell: Os funcionários públicos têm a responsabilidade de reconsiderar o uso de spray de pimenta, porque o uso de spray de pimenta faz com que as pessoas tussam. Gás lacrimogênio: provavelmente você vai tossir, chorar e querer retirar as máscaras.

No infeliz caso de que as pessoas sejam presas ou detidas, colocar várias pessoas num automóvel pequeno e fechado também a ameaça potencial de propagar Covid. O pior de tudo, colocar alguém na cárcere: sabemos que há surtos de Covid em todo o país nas cárceres. Não somente corresponde a nossos manifestantes a ficarem a salvo. Também corresponde a nossa força policial e a nossos líderes públicos garantir a segurança dos manifestantes.

Entrevistados

  • Dr. Georges Benjamin, médico e diretor executivo, Associação Americana de Saúde Pública.
  • Lauren Powell, epidemiologista e vice-presidenta, chefa da indústria da Saúde, Time’s Up
  • Dra. Kimberly Sue, médica e antropóloga, e diretora médica da Coalizão para a redução de Danos.

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