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occupycityhall

Quem leu que Bolsonaro conserva 32% dos votos esta preocupado e se pergunta: teremos que suportar este governo genocida até 2022? É uma hipótese colocada a medida – e não sabemos até quando – o movimento democrático e nós psolistas em sua vanguarda não podemos voltar a ocupar as ruas para que se expresse a maioria do povo a favor do Fora Bolsonaro. Mas, ao mesmo tempo, uma onda de entusiasmo ou esperança surge dos dois eventos do título deste texto. Ambos mostram que, desde a morte de Georgia Floyd, o mundo não é o mesmo. Estas mobilizações tornaram possível ampliar a compreensão do profundo significado presente na luta anti-racista e tomar mais consciência da crise climática que o planeta atravessa.

Em Nova York há um novo “occuppy” que nos faz lembrar o Occupy Wall Street; agora vemos o Occuppy City Hall, a prefeitura de Nova York. Uma multidão organizada toma o palco em uma demonstração de que o movimento antirracista está se fortalecendo, ganhando consciência de que um dos pilares sobre os quais o racismo repousa e é sustentado – a polícia de ultra-direita naquele país – precisa ser mudado pela raiz.

Como comentou o New York Times neste domingo: “com chuva ou trovoadas, centenas de manifestantes acamparam em frente à prefeitura durante todo o dia, recusando-se a sair até que o orçamento da polícia seja cortado”. Este movimento começou na terça-feira e tudo indica que ele é mais poderoso e organizado do que o de 2011. Milhares se revezam dia e noite na Praça da Prefeitura contra o prefeito racista De Blasio que lançou a polícia contra os manifestantes no início das mobilizações. Novamente diz o NYT : “Em questão de dias, o movimento criou raízes”. O que começou como um pedaço de grama e alguns metros quadrados agora tomou conta da maior parte do parque e atraiu muita atenção nas redes sociais, com ‘Occupy City Hall’ como o grito de mobilização do grupo.

Os voluntários afluíram ao parque, deixando comida, café e suprimentos para construir uma espécie de acampamento. A palavra de ordem inicial, e ainda ganhando força em todo o país, é o desfinanciamento da polícia. Entretanto, em torno da demanda de mobilização contra o aparelho repressivo do racismo, são discutidas diferentes demandas. No início da ocupação, um milhão de dólares foi retirado de um orçamento de 6 milhões de dólares para ser investido na comunidade, mas também há um debate democrático sobre a substituição desta força policial por uma força policial comunitária, como já é a palavra de ordem em Minneapolis.

Cruzando o Atlântico, novamente na França que nos surpreendeu com os coletes amarelos, as eleições municipais foram um forte golpe para o partido do presidente Macron e um crescimento sem precedentes do ambientalismo e dos verdes que se aliaram ao PS para reeleger a prefeita socialista Hidalgo e assumir a prefeitura de Lyon (segunda cidade da França e baluarte da direita), Marselha, Bordeaux, entre outras. A esta maré verde, devemos acrescentar como outro fato significativo, a alta abstenção muito maior que em outras eleições anteriores, que não pode ser atribuída ao medo da pandemia.

Segundo o jornal francês Le Monde, é o resultado de três crises que estão se combinando. “Esta eleição mostrou que o processo de decomposição e fragmentação que começou após a eleição de Macron continua, e desta vez se trata do próprio presidente”. Le Monde fala de mais duas crises: a crise do regime demonstrada pela alta abstenção e a crise de Macron e seu partido .

Podemos tirar outras conclusões a partir destes resultados eleitorais. Uma delas é que temos que vincular estes resultados à continuidade no campo eleitoral das mobilizações dos coletes amarelos. A caracterização do NPA (Novo Partido Anti-Capitalista) demonstrou ser correta. Em 2018 eles previram que, embora as mobilizações dos coletes amarelo contra Macron tivessem enfraquecido e quase desaparecido, seu governo tinha sofrido um golpe mortal. E assim indicam estes resultados. Por sua vez, este partido-irmão do PSOL alcançou com Poutou, (metalúrgico e ex-candidato nas últimas eleições presidenciais) a cifra de 12% nas eleições de Bourdeaux, sendo o terceiro partido na disputa. Podemos tirar outras conclusões a partir destes resultados eleitorais.

O fim de semana mostra que o mundo está em movimento e que, como dissemos, um setor do movimento de massa está se movendo em direção a um novo programa onde a questão do racismo e da luta ecológica está sendo apresentada como uma exigência fundamental. Desta forma, as mobilizações também têm um caráter mais anti-sistema, mesmo que isto não signifique ainda uma consciência transicional em direção ao socialismo.

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