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(Primeiras impressões sobre a mudança na situação mundial. Texto de 08/06/20, editado e ampliado em 9/06/20)

1 – Há uma mudança na situação mundial. Uma mudança que está aberta, mas é uma mudança, abre uma dinâmica. A situação deu um salto de quantidade para qualidade. A centelha foi o assassinato de George Floyd em Minneapolis, porém a revolta se espalhou amplamente nos EUA e, neste fim de semana, para muitos países. Em meio à pandemia que estabelece uma fronteira e limita mobilização, há mobilizações de mais de 10.000 pessoas em centenas de cidades dos Estados Unidos e em outras grandes cidades do planeta, um fato chave para explicar esta mudança.

2 – Uma característica chave da situação atual é que a luta contra o racismo não se limita à demanda de acusação e condenação da polícia assassina e uma rebelião do povo negro, mas pela primeira vez tem sido maciçamente unida pelos brancos. Isto representa uma mudança significativa nestes protestos e nesta nova situação. Nesse país, os brancos costumavam se limitar a simpatizar com as lutas anti-racistas. Desta vez, no entanto, eles estão participando lado a lado com os negros, indicando uma mudança para um caráter anti-sistêmico e anti-regime, embora ainda seja confuso. Por outro lado, do outro lado do Atlântico, os europeus estão se juntando aos negros e aos imigrantes, o que significa que nesses países a consciência de massa continua na mesma direção.

É por isso que os slogans para “desfinanciar o aparelho repressivo, reestruturar a polícia ou desmantelar a própria polícia e sua estrutura racista e investir em serviços sociais” foram incorporados nas mobilizações (em Minneapolis o prefeito anunciou o desmantelamento da polícia).
As mobilizações também começam a confrontar Trump, inclusive pedindo a sua renúncia. Nas manifestações em Boston, que é uma cidade democrática, na manifestação de 10.000 pessoas neste domingo, houve gritos e faixas nessa direção.

3 – Por que isso é um triunfo, que, embora parcial, abre uma nova situação? Quando Trump começou, ele pediu um toque de recolher e um estado de sítio nos estados onde os protestos aconteceram. Ao mesmo tempo, mobilizou um forte aparato repressivo, aproveitando os diversos saques, provocações e ações individualistas dos anarquistas para tentar isolar as manifestações, (algo semelhante ao que aconteceu no Brasil em 2013 com os black blocs).

Tenha em mente que a polícia dos EUA é uma das mais direitistas e racista do mundo. Um dispositivo que tem um altíssimo poder de repressão e tem sindicatos corporativos ligados à extrema direita nos Estados Unidos. Apesar de seus números e presença (mesmo com tanques) e de suas prisões, as pessoas não se assustaram. A realidade era diferente do que Trump havia planejado. O povo desafiou o toque de recolher e foi justamente o estado de sítio que ajudou a tornar as manifestações mais concentradas e organizadas, rejeitando as iniciativas ultras dos anarquistas.

Trump tentou mobilizar o Exército, mas sua tentativa também foi derrotada. Os generais – ativos ou aposentados – disseram-lhe publicamente que não o fariam. Trump queria caracterizar os manifestantes como criminosos e terroristas, mas não acreditou na ideia deles. Pode-se dizer que a maioria dos setores políticos dominantes e os altos escalões das Forças Armadas rejeitaram a linha dura de intervenção do exército proposta por Trump para deter os protestos. Portanto, esta é uma derrota muito importante para Trump, que não conseguiu convencer a classe dominante de que havia necessidade de uma repressão militarizada que ajudaria a abrir um curso bonapartista em seu governo.

Da mesma forma, Trump perdeu a batalha na opinião pública. As pesquisas mostram que a maioria da população apoia os protestos, se opõe às medidas repressivas e desenvolve um senso de solidariedade; simpatizam ou participam das mobilizações.

4 – O caráter anti-sistêmico nos EUA que está se espalhando pelo mundo surge porque o racismo não só significa discriminação contra os indivíduos negros ou repressão ao movimento negro, mas também significa opressão dos setores mais pobres da sociedade e, portanto, exploração capitalista dos mesmos. Desta forma, nos Estados Unidos e no mundo inteiro nasce uma nova atitude de respeito e solidariedade com os imigrantes, cujos contingentes são imensas ondas de negros, latino-americanos, amarelos, índios, paquistaneses, árabes, … que fogem da pobreza e entram por assalto nos países do “primeiro mundo”.

5 – Assim, vários elementos qualitativos se unem: protestos de 10.000 ou mais pessoas que estão se espalhando pelo mundo em meio a uma pandemia, demandas anti-sistêmicas, composição plural de atos. E isso acontece em meio a uma situação de crise de saúde, econômica, ecológica e também de regimes e representações políticas; uma crise multidimensional.

6 – O movimento anti-racista nos EUA não tem uma direção centralizada, ele segue o curso espontâneo das novas rebeliões ocorridas na Argélia, Sudão, Chile, Haiti, Líbano… A falta de direção torna mais difícil dar continuidade à mobilização, propondo formas de organização para recuperar forças e ajudar a dar mais clareza aos objetivos da luta à medida que a mobilização se aprofunda. Assim, os impasses podem ser abertos e o perigo repressivo da direita continua a ser uma ameaça. Mas não podemos nos iludir, não voltamos ao ponto anterior nem nos retiramos para saídas mais reacionárias. Trump nos EUA como Bolsonaro no Brasil são muito perigosos, mas estão se enfraquecendo.

Isso está acontecendo em outros países. Para dar um exemplo mais concreto, temos o que aconteceu com o sangrento golpe de Estado na Bolívia. Naquele país a direita fascista de Santa Cruz chegou ao ponto de entrar no palácio do governo; o exército acabou encenando um golpe para impor um governo de extrema-direita. O povo indígena de El Alto e os camponeses colocaram muita resistência, mas a repressão sangrenta pareceu derrotá-los por um período inteiro. A Comissão de Direitos Humanos da OEA acaba de dizer que o relatório feito pelo governo golpista para justificar a fraude é falso. Não foi por acaso. É a situação inquieta das massas invictas e o perigo de uma revolução que faz com que este corpo a serviço do imperialismo tenha que fazer um relatório mais realista.

7 – Trump e Bolsonaro são personagens autoritários, racistas, obscurantistas e pró-fascistas. O surgimento do autoritarismo no mundo pode ser explicado pela crise dos velhos regimes democráticos burgueses neoliberais que incentivam uma parte da burguesia a usar o racismo contra negros e imigrantes para uma solução autoritária. Esta política conquistou uma parte da classe trabalhadora desesperada que procurava um punho de ferro para trazer ordem ao caos ou à crise econômica. Esse movimento em meio à pandemia está confrontando e enfraquecendo essa política. O espírito de solidariedade coletiva e o enfrentamento de medidas autoritárias está enfraquecendo-os

8 – A crise de saúde causada pelo coronavírus mostra que a classe dominante mundial está dividida em sua atitude em relação à pandemia. Trump, Bolsonaro e outros regimes totalitários são negacionistas da ciência e obscurantistas que ignoraram as recomendações de isolamento e controle sanitário. Com suas políticas de “a crise econômica é a pior pandemia”, fizeram deles os dois países com mais casos; Bolsonaro é um genocida proto-fascista. Sua política de tentar transformar o regime em militar dissolvendo o Congresso e o Supremo Tribunal Federal causou uma grande diferenciação dos partidos burgueses. A oposição burguesa é temerosa, não quer mobilização, mas também não quer mudanças de regime.

Subestimar ou ignorar elementos fascistas e colocar um sinal de igualdade entre Bolsonaro e o parlamento burguês, ou entre Trump e os Democratas nos EUA, seria uma posição errada que levaria ao sectarismo. Nem com a burguesia imperialista democrática nem com a oposição burguesa no Brasil temos qualquer chance de uma política comum de defesa dos trabalhadores diante da violenta ofensiva que eles sofrem e que se agravará nos próximos meses. Mas podemos e devemos fazer unidade na ação – quando possível -, para a defesa das liberdades democráticas. No caso do Brasil, por exemplo, contra a tentativa ditatorial de Bolsonaro de fechar o congresso e o STF.

Nos Estados Unidos, os socialistas não têm um candidato, mas não podem colocar um sinal de igualdade entre os Democratas e Trump. Como dissemos, ele queria a intervenção do exército, e os Democratas e até uma minoria dos Republicanos o rejeitou.

9 – Temos uma política independente e não nos confundimos com nenhum setor da burguesia, e construímos uma nova alternativa anti-capitalista. Nosso lugar privilegiado de atuação é ao lado das mobilizações que estão movimentando os EUA e o mundo. Estamos juntos com a vanguarda que também está dentro destes processos. É uma vanguarda radicalizada em suas posições e em sua ação, ainda está dispersa, mas acumula experiências.

É a questão viva para que os novos processos de política social sejam fortalecidos, como o que está ocorrendo nos EUA como resultado das greves dos trabalhadores e do movimento criado após a candidatura de Sanders e seu programa. O programa de Sanders é uma conquista que não se apaga com a renúncia de sua candidatura. Com a crise ela está muito em vigor, e tem gerado um movimento político social do qual os Democratic Socialists of America (DSA) são sua melhor expressão, que certamente será fortalecida pela luta anti-racista.

10 – A situação mundial mudou e muito provavelmente vai avançar e tomar a forma de uma disputa mais aberta. Esta mudança já estava ocorrendo antes da pandemia; ela se expressou nas rebeliões dos chilenos, na revolta indígena no Equador, na rebelião do Líbano, para marcar as mais recentes. Este processo foi congelado com a pandemia, mas não morreu. Antes da pandemia, todos esses elementos se preparavam; vivíamos uma onda de mobilizações que foi a mais importante após as revoluções de 1968.

Se a pandemia paralisou a mobilização, agora ela é retomada cuidadosamente, seguindo as regras de saúde. E ao mesmo tempo, o avanço da consciência não parou, ele retorna com mais noção da luta anti-sísmica. A luta contra o racismo e a defesa dos direitos dos imigrantes constituiu um novo sentido coletivo de solidariedade com a classe e os oprimidos, muito difícil de se perder aqui no futuro. A crise econômica exige um programa de transição com medidas para que os ricos paguem pela crise econômica que provocaram. Esta caracterização é fundamental para definir a política e orientar as tarefas futuras dos anticapitalistas.

11 – Há também um processo de mudança positiva na consciência das massas diante da devastação econômica e ecológica causada pelo modelo neoliberal. Há uma juventude que já era a mais rebelde antes da catástrofe. Eles olham para o seu futuro e vêem que estão ameaçados. Os jovens que estiveram e estão na vanguarda da luta ecológica serão agora sacudidos pela luta anti-racista; eles querem uma sociedade diferente. Parece que o movimento de rebelião geracional de 68 está se repetindo. 1968 pode ser controlado pela colaboração das burocracias (Rússia e China) com a burguesia.

Agora, o panorama parece mais aberto. Há mais ausência de liderança, há atraso na consciência de massa, mas o caminho, especialmente na juventude e nas mulheres, está aberto.

As mulheres com seu movimento feminista têm ocupado a linha de frente. Ela tem estado à frente das grandes mobilizações e agora está se fazendo sentir novamente.

12 – Este novo processo mundial traz um novo internacionalismo solidário no qual os anticapitalistas têm a obrigação de participar. Podemos desempenhar um papel muito eficaz em todos esses processos se, ao mesmo tempo, tomarmos consciência da necessidade de reorganização das forças anticapitalistas a um nível superior.

Se a primeira coisa é participar dessas mobilizações, a segunda é oferecer um programa anticapitalista que lhe dê continuidade, e a terceira é dar passos práticos de deliberação e ação comum de nossas forças. Trata-se de unir esforços daqueles de nós que participam dos novos processos amplos ou que olham com simpatia para eles. Estabelecer uma rica troca de experiências que ajudará na construção desse programa e desenvolver uma atividade prática comum.

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