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FONTE: Página 12 | 29/07/2020 | Tradução: Charles Rosa

A principal entidade operária da Bolívia disse que se o TSE não volta atrás em sua decisão de postergar as eleições, os trabalhadores irão a uma greve indefinida. A medida entraria em vigor a partir de 3 de agosto.

A Central Obrera Boliviana (COB) convocou um cabildo aberto em La Paz para debater a postergação das eleições anunciada pelo Tribunal Supremo Eleitoral (TSE). Do encontro participaram organizações sindicais e sociais de todo o país. O cabildo resolveu dar 72 horas ao TSE para que retroceda com a medida e volte à data de 6 de setembro. Caso não atenda o pedido, a partir de 3 de agosto, haverá uma greve indefinida em todo o país, informou o Secretário Executivo da COB, Juan Carlos Huarachi. A mobilização continuou até o centro de La Paz. Além disso, o protesto foi replicado em várias regiões do país. Desde o governo de facto pediram que a justiça atue contra o candidato a presidente pelo Movimiento al Socialismo (MAS), Luis Arce, por organizar uma marcha em meio à pandemia.

“Eleições já!”

Na semana passada, o TSE havia prorrogado pela terceira vez as eleições presidenciais e fixou uma nova data em 18 de outubro. Em resposta a esta medida, o movimento operário boliviano convocou uma mobilização que teve como destino o centro de La Paz. A jornada começou na cidade de Senkata, um lugar de alto valor simbólico. Ali, em 19 de novembro do ano passado, o governo de facto levou a cabo uma feroz repressão que deixou como saldo dez mortos, 65 feridos e dezenas de detidos. Ao sair de Senkata, a coluna se mobilizou até La Ceja. Nesse lugar organizaram um cabildo aberto onde se discutiu o adiamento das eleições. O Secretário Executivo da COB manifestou seu inconformismo com a medida. “Vendo as necessidades do povo como o problema de saúde, a educação, a estabilidade laboral, a queda da economia, estamos indignados e surpresos pelas decisões do TSE”, disse o sindicalista ao diário La Razón.

Depois de quase uma hora de debates, o Cabildo resolveu dar 72 horas ao TSE para que retroceda com a mudança na data das eleições. Caso contrário, indicaram que realizarão uma greve indefinida com bloqueio de estradas a partir de 3 de agosto. “Que o TSE se retrate e cumpra as eleições em 6 de setembro. (…) É o pedido do povo, é o pedido das bases para recuperar a nossa soberania, a nossa dignidade. Basta de falta de respeito à democracia. Até a vitória sempre!”, vocalizou o secretário executivo da COB. A assembleia se encerrou com o grito de “eleições já!” para seguir rumo a La Paz.

Em defesa da democracia

Depois de duas horas de caminhada, as colunas chegaram ao coração da capital boliviana. A grande maioria das pessoas usava máscaras. O Secretário executivo da Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros da Bolívia, Orlando Gutiérrez, destacou a importância de manter a unidade do movimento operário. “Este governo se constituiu no pior erro da história da Bolívia. Portanto, o povo merece reclamar seus direitos como estamos fazendo”, sustentou o dirigente mineiro ao portal  Periodistas por El Cambio. Além disso, criticou a decisão unilateral do TSE de prorrogar as eleições sem passar pelo Congresso. “Devem respeitar o caminho legal de passar pela Assembleia Legislativa. Ali se tem que promulgar uma lei para modificar outra lei”, enfatizou Guitiérrez.

A Confederação Nacional de Mulheres Indígenas também se fez presente na marcha. A dirigente da organização “Bartolina Sisa”, Segundina Flores, assinalou que a marcha era em defesa da democracia. “Hoje em dia o povo está de pé para dizer basta de humilhação, de corrupção, de discriminação”, observou a dirigente social. Em Cochabamba, terra de Evo Morales, organizou-se outra marcha convocada por membros das Seis Federações do Trópico. Também houve mobilizações em Potosí, Chuquisaca, e várias zonas do país.

Por sua vez, o governo de facto buscou criminalizar a jornada de protestos. O ministro da Presidência, Yerko Núñez, acusou o candidato presidencial do MAS e os dirigentes sindicais por organizar a mobilização em meio à pandemia. “Luis Arce admitiu que está por trás desta mobilização e, portanto, isso é uma confissão com provas, e ele terá que prestar contas sobre a decisão que tomou”, ameaçou o ministro. Por esse motivo, ele pediu à Procuradoria que atue de ofício para processar os cidadãos que planejaram o ato.

De sua parte, Evo Morales denunciou que durante a mobilização membros das Forças Armadas foram trasladados a La Paz e ao Trópico de Cochabamba. “As Forças Armadas não devem atacar o povo que defende seus recursos naturais, mas defender a soberania e a independência”, escreveu o ex-presidente no Twitter. Enquanto isso, Arce ressaltou que o governo era o único culpado pela crise sanitária que vive o país. “A incapacidade do governo de facto põe em risco a vida das e dos bolivianos”, expressou o candidato a presidente. Ao mesmo tempo, seu companheiro de chapa, David Choquehuanca, sublinhou a organização dos setores populares. “Somente com a unidade do povo bolivianos recuperaremos o Estado de direito, nossa democracia, nossa saúde, nossa educação, nossa esperança e nossa estabilidade. Jallalla os povos do mundo!”, afirmou o líder sindical aimara.

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