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Fonte: NPA | 08/07/2020 | Tradução: Alain Geffrouais

Desde o início da epidemia de Covid-19 algumas matérias ou tribunas de africanistas denunciaram o catastrofismo em relação a África até destacaram, de uma forma as vezes otimista, “uma forte e comprovada capacidade de resistência, adaptação e inventividade” em comparação com outros continentes, afirmando mesmo que “a epidemia está estagnada ou até regredindo”. Tinham razão ou estavam errados?

Embora a África represente apenas 3,4% dos casos e 1,7% das mortes no mundo, de acordo com os números no final de Junho de 2020, esse optimismo deve ser fortemente relativizado. De fato, os dados disponíveis para alguns países podem ser questionados, seja por razões políticas ou por falta de recursos. Talvez o exemplo mais caricatural seja o Burundi. O seu antigo presidente Nkurunziza jurou que o seu país estava protegido pela “graça divina” antes de ele próprio morrer de Covid-19, apesar de oficialmente as autoridades falarem de uma parada cardíaca. O caso da Nigéria é também revelador. No norte do país, foram registadas dezenas de surtos de “mortes misteriosas”. De facto, após investigação, a maior parte deles deveu-se à epidemia da SRA-CoV-2 2. 

Aceleração da pandemia

No Congo RDC, na região de Kivu, o Dr. Denis Mukwege, Prémio Nobel da Paz pela sua acção em favor das mulheres vítimas de violência sexual, apresentou sua demissão do “Comité de resposta à epidemia”, denunciando a falta de meios. Os resultados do rastreio demoram pelo menos duas semanas, tornando impossível a tomada de medidas rápidas de isolamento sanitário.

Se a África, em comparação com outros continentes, é menos impactada por razões ainda não cientificamente explicadas, mesmo que sejam evocadas várias hipóteses – como a demografia, o clima, a rapidez das medidas tomadas – não é poupada. A epidemia está acelerando: “Foram precisos 98 dias para atingir a marca dos 100.000 casos e apenas 18 dias para quebrar a marca dos 200.000”, diz o Dr. Matshidiso Moeti, para a OMS África. Uma epidemia que começa a se alastrar nas zonas rurais onde a oferta de cuidados é em grande parte inexistente.

Os países mais afectados são o Egito, a Nigéria e a África do Sul, onde tem grandes tensões nos hospitais com 160.000 casos. Em países como Madagáscar, que é muito menos afectado pela epidemia, os profissionais de saúde ameaçaram entrar em greve se não receberem equipamentos de proteção individual no prazo de uma semana.

Crise econômica

A fim de evitar um estrangulamento económico, as autoridades escolheram afrouxar as regras de desconfinamento apesar de uma situação de saúde preocupante, o que poderia explicar este aumento significativo do número de infecções.

O que é certo é que os países africanos terão de enfrentar uma grande crise econômica com uma epidemia que só vai acentuar a desaceleração econômica que o continente tem vindo a sofrer nos últimos anos. Os países africanos estão a pagar pela extrema dependência das suas economias em relação aos países ricos. Com efeito, as exportações maciças de matérias-primas como o petróleo, mas também de platina, borracha, etc., estão reduzidas devido a crise e as importações estão se tornando mais caras com a quebra das cadeias de abastecimento. O peso da dívida está aumentando nos orçamentos nacionais de países como o Sudão, Moçambique ou Congo-Brazzaville. Além disso, de acordo com estimativas do Banco Mundial, as somas que os trabalhadores imigrantes enviam às suas famílias caíram para 20%. O sofrimento vai aumentar na ausência de medidas sociais.

Paul Martial é militante do NPA.

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