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FONTE: Jacobin Magazine | 14/07/2020 | Tradução: Charles Rosa

Em novembro passado, a vereadora socialista de Seattle, Kshama Sawant, foi reeleita e, como era de se esperar, a campanha de seu oponente foi respaldada financeiramente pela elite econômica de Seattle. Amazon, a corporação milionária com sede em Seattle e propriedade do homem mais rico do mundo, canalizou enormes somas de dinheiro para derrotar Sawant, se aproximando bastante da vitória às vésperas da eleição. Porém, alguns dias depois, Sawant saiu vitoriosa.

A classe capitalista de Seattle tinha boas razões para organizar uma ofensiva agressiva contra Sawant: fez campanha com a promessa de aumentar os impostos sobre as grandes corporações para financiar os programas sociais. Sawant apresentou esta proposta no Conselho Municipal em 2018 e, de fato, conseguiu aprová-la por unanimidade. Mas a Amazon e outras grandes corporações ameaçar se mudar de Seattle, o que levou a maioria do conselho da cidade a reverter sua posição.

Em 2019, Sawant fez campanha com a promessa de reintroduzir a proposta. Quando ela declarou sua vitória, ela o fez diante de uma faixa gigante que dizia “Tax Amazon” [“Taxar a Amazon”]. Na semana passada, o Conselho da Cidade de Seattle aprovou uma nova versão da proposta de “Tax Amazon” de Sawant.

Sawant e a vereadora Tammy Morales apresentaram o projeto de lei no contexto da pandemia de coronavírus, argumentando que a crise o tornou ainda mais necessário do que nunca. O projeto propunha um imposto sobre os 2% mais ricos das corporações de Seattle. Este imposto geraria 500 milhões de dólares em arrecadação, dos quais 200 milhões seriam destinados à assistência monetária de emergência para os lares da classe trabalhadora mais afetados pelo fechamento econômico relacionado com a pandemia. O restante dos fundos seriam destinados a moradias sociais e um programa de empregos Green New Deal.

Tal como havia ocorrido dois anos antes, o ranger de dentes começou imediatamente. A junta editorial do Seattle Times qualificou a destinação da arrecadação deste imposto para a provisão de ajuda pandêmica como pouco convincente e conspirativa. “Sob a cobertura política da emergência do Covid-19, o conselho aprovou por 7×2 o impulsionamento de um imposto a longo prazo para os empregadores mais ricos da cidades a fim de pagar os empregos de alta remuneração”, se lê no editorial.

Mas a pandemia “tem tudo a ver com o capitalismo e a desigualdade”, afirmou Sawant para a Jacobin. Durante a crise do coronavírus, o desemprego disparou aos níveis da Grande Depressão, enquanto a fortuna do proprietário da Amazon, Jeff Bezos, aumentou para mais de 150 bilhões de dólares. “As próprias comunidades marginalizadas que já estavam enfrentando uma crise em termos de aluguéis disparados, por exemplo, são as mais afetadas pelo coronavírus. O povo compreende que a crise está muito relacionada com o sistema político e econômico”.

Mas o objetivo principal do editorial do Seattle Time e, de fato, da maioria das críticas à legislação, é a advertência de que as grandes empresas se retirariam para cidade de Bellevue ou abandonariam a região por completo, levando os empregos e os ingressos fiscais. Já escutamos isso antes, não somente durante as etapas anteriores da luta fiscal com a Amazon, afirma Sawant, mas décadas atrás com a Boeing, o maior empregador privado no estado de Washington.

“A corporação Boeing tem uma longa história de haver driblado o fisco da legislatura estadual”, diz Sawant. “E uso a palavra “extorsão” de modo muito consciente porque o argumento na legislatura estadual, tanto por parte dos republicanos quanto dos democratas, sempre foi de que se cobrássemos mais impostos dos executivos da Boeing, eles levariam milhares de empregos para outro lugar”. Sawant diz que as isenções fiscais ocorreram constantemente durante décadas, mas ainda assim a Boeing eliminou treze mil postos de trabalho do estado.

Quando as corporações ameaçam castigar economicamente uma região por aumentar os impostos ou endurecer regulação, a capitulação conduz a “nada mais do que uma corrida em direção ao fundo para a classe trabalhadora em cidades de todo o país e do mundo”. Sawant vê o movimento Fight for $15 como uma ilustração do princípio ao reverso.

Quando Sawant apresentou pela primeira vez uma proposta de quinze dólares por hora ao conselho da cidade de Seattle, foram utilizados os mesmos argumentos: assustaria os negócios e arruinaria a economia da cidade. Isto não somente ocorreu, mas a vitória em Seattle da luta pelo 15 dólares iniciou uma onda de vitórias similares no salário mínimo por todo o país, numa corrida para cima.

“Acovardar-se com os valentões corporativos não é a resposta”, diz Sawant. Também destaca a busca da Amazon por uma localização para uma segunda sede corporativa, o que deu início a uma guerra de licitação municipal para chamar a atenção da companhia.

Incentivada por $ 3 bilhões em isenções estaduais e locais, a Amazon escolheu o Queens. Mas com a liderança da deputada socialista Alexandria Ocasio-Cortez, e com uma forte atuação do campo socialista e progressista, a classe trabalhado do Queens lutou contra o gasto massivo de dinheiro público num projeto que seguramente aumentará os aluguéis e removerá muitos moradores existentes. A Amazon terminou criando um campus corporativo em Manhattan, sem as isenções fiscais da cidade de Nova York originalmente prometidas.

O jeito, segundo Sawant, é denunciar o blefe. As grandes corporações têm o poder de retirar empregos e a arrecadação fiscal, mas o apaziguamento não é uma estratégia a longo prazo para outra coisa que não seja piorar a desigualdade econômica. “Aceitar sua lógica não ajuda nada”, afirma Sawant. “E além disso, quando você não a aceita, você está difundindo a mensagem de confiança na classe trabalhadora e na sua capacidade para reverter o cenário”.

A última vez que o conselho municipal de Seattle aprovou uma proposta para taxar a Amazon e outras grandes empresas, o clima de medo instalado pelas empresas obrigou os vereadores a rever suas decisões. Desta vez, Sawant diz que tem algo valioso pode ajudar a que se repita situação similar: um movimento “Tax Amazon” que está mais forte do que nunca.

“Compreender como ganhamos em primeiro lugar é importante”, constata Sawant. “A razão pela qual ganhamos foi porque um movimento poderoso e indepedente que se organizou democraticamente”. O movimento Tax Amazon se estruturou em torno de várias conferências de ação, onde os moradores de Seattle da classe trabalhadora discutiram, debateram e votaram sobre os elementos-chave do projeto de lei.

Estas pessoas estão prontas para entrar em ação a fim de pressionar os vereadores para que não revejam suas posições, caso pareça provável que se repita a última vez. E se a Amazon e outras grandes empresas decidirem apresentar um referendo revogatório, o movimento já tem recolhidas trinta mil assinaturas para uma iniciativa de votação sobre a Amazon.

Se uma reforma que promova ou não os interesses da classe trabalhadora será implementada realmente “nunca se trata de detalhes legislativos”, diz Sawant. “É sobre poder”. E neste momento, a classe trabalhadora de Seattle está sentindo o seu poder.

Meagan Day faz parte da Redação da Jacobin Magazine.

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