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FONTE: Colombia Informa | 16/07/2020 | Tradução: Charles Rosa

A pandemia da Covid-19 provocou muitas reflexões sobre as estratégias de saída para a crise. Enquanto muitos advogam por um “retorno à normalidade” e um regresso ao crescimento sem questionar os pontos cegos do sistema econômico dominante, certas perspectivas mais radicais propõem sair do “capitalismo patriarcal”.

A teórica e feminista marxista Silvia Federici compartilhou suas ideias sobre o atual momento num seminário web correspondente a um projeto de pesquisa sobre sociedades de pós-crescimento, adscrito ao Centro de Pesquisa sobre Inovações e Transformações Sociais da Escola de Inovação Social Elizabeth-Bruyere da Universidade de Saint Paul, em Ottawa (Canadá). O site Colombia Informa publicou uma tradução ao espanhol editada deste seminário* que explorou formas de construir uma sociedade para além do crescimento, do capitalismo, do colonialismo e do patriarcado.

A reprodução social, os bens comuns, a relação com o corpo e o território foram os diferentes temas abordados neste intercâmbio com uma das intelectuais críticas mais relevantes de nosso tempo.

Silvia Federici é professora emérita da Universidade Hofstra no Estado de Nova York. Membro fundador do Coletivo Internacional Feminista na década de 1970. Foi uma das ativistas por trás da campanha Salário para o trabalho doméstico, que continua alimentando as lutas contemporâneas contra a invisibilização do trabalho das mulheres. É autora de vários livros como Wages Against Housework (1975), O ponto zero da revolução (2012), Calibã e a Bruxa (2014), Mulheres e caça às bruxas (2018), Re-enchanting the World: Feminism and the Politics of the Commons (2018), Beyond the Periphery of the Skin: Rethinking, Remaking, and Reclaiming the Body in Contemporary Capitalism (2020).

Escola de Inovação Social: Em seus últimos livros Re-enchanting the World e Beyond the Periphery of the Skin falou do tema do “pós-capitalismo” sob a lente da visão de reprodução social. Você poderia nos compartilhar o que significa o pós-capitalismo?

Silvia Federici: Creio que é importante contextualizar a pergunta do tipo de transformação que necessitamos. Oxalá a crise atual, esta pandemia, seja uma oportunidade histórica, um momento fundamental de tomada de consciência. O sistema social atual, de maneira sistemática, desvaloriza a vida humana e desvaloriza toda forma de vida em geral. Nos leva a um ciclo infinito de crises. Essa crise tem uma dimensão global que está afetando todas as esferas da vida. Oxalá seja um ponto de inflexão. Estamos num ponto que não permite o retorno à normalidade na qual estávamos. É um momento crítico para todas as pessoas neste planeta. A Covid-19 jogou luzes nas crises já existentes e isso é muito importante. Fez com que fosse visível e que fosse inevitável ver uma quantidade de crises que já existiam, incluindo a crise da reprodução, por exemplo. O fato de que, sistematicamente, nos últimos 30 anos o sistema sanitário e de saúde tenha diferenciado populações em distintos graus e distintas maneiras, teve um impacto diferente em muitas partes do mundo. Mas em todas as partes estamos ante sistemas totalmente desmantelados. Por exemplo, nos Estados Unidos, as comunidades racializadas e negras foram afetadas de maneira desmedida pelos impactos do desmantelamento da saúde. O sistema sanitário a nível global foi privatizado.

Paralelamente, presenciamos um ataque sistemático ao sistema agrícola nos últimos 30 anos com monocultivos e agroindústria que foram contrários à produção de comida (a qual é essencial para a reprodução da vida). A produção da comida foi assimilada ao mundo industrial com o uso de químicos e de sementes geneticamente modificadas. Tudo isso tem um impacto direto sobre nosso sistema corporal, social, imunitário. Inclusive tem um impacto sobre nossa capacidade de reprodução como espécie. É importante porque temos que ver como essas crises se conectam com o trabalho. E isso nos permite entender a razão pela qual há tanta gente desempregada que está sendo

substituída por máquinas. Enquanto outros têm que trabalhar mais do que nunca. Então, temos de um lado esse desemprego e, de outro lado, essa obrigação de trabalhar mais e mais. Esta tendência afeta, especialmente, as mulheres.

As mulheres querem hoje se emancipar através do trabalho. Mas devem ter dois ou três trabalhos para poder ter algum tipo de autonomia econômica. Necessitam ter mais de um emprego. É uma contradição fundamental entre a reprodução da família e o trabalho. Por isso vemos as crianças e as pessoas da terceira idade nesta situação. Mas, sem me estender muito neste ponto porque penso que muitos desses elementos desta crise vocês já conhecem muito bem, vocês sabem que a distintos graus vivemos estas consequências concretas. Então, o que está acontecendo hoje?

Estamos tomando consciência de que nossas vidas estão em perigo. Há uma necessidade de mudança estrutural. Uma necessidade de começar uma mudança social desde a reconstrução do processo de reprodução social, já que a mesma lógica do capitalismo está baseada em desvalorizar a vida humana e subsumi-la à acumulação do capital.

Este sistema econômico coloca a ideia de crescimento contínuo como princípio da exploração da vida humana. Para realizar uma mudança se deve colocar a vida no centro, o qual é um lema importante para o movimento feminista. Colocar o “bem viver” no centro. Estamos falando de uma sociedade que permita aos indivíduos e às coletividades prosperar e que não estejam escravizadas de maneira perpétua, fazendo com que a riqueza produzida beneficie a todos e a todas. Para isso, todos os aspectos das reproduções se devem ser transformadas. Começando, claramente, com essas atividades centrais para o desenvolvimento de nossas vidas: o trabalho doméstico, a criação das crianças, o cuidado com as pessoas que não são autossuficientes. Mas não é suficiente, devemos de repensar a agricultura e nos afastar do modelo de agricultura atual, que é uma produção da morte. Se pensamos nisso, reproduz carências e mortes porque se baseia no comércio e no mercado. Somente beneficia pessoas que têm os meios para adquirir esta comida e, ao mesmo tempo, a produção dessa comida está contaminando a água e acabando com as sementes. Estes químicos estão na terra, estão no ar e estão em nossos corpos.

Quando compramos comida, não sabemos se estamos nos nutrindo ou se estamos nos envenenando. Esta é a situação atual. Comprar comida hoje é um ato de ansiedade. Temos que nos projetar a uma transformação fundamental e cultural. Cultural no sentido de que temos que tomar o caminho em direção a uma sociedade que consiga acabar com esta desconfiança entre nós. Uma desconfiança que nos foi inculcada por todos os meios possíveis. Temos uma relação negativa com o outro. Esta relação é o centro de nossas riquezas e da sociedade, igual nossa relação com os animais e com a natureza. Isso deve mudar e temos que por fim ao tratamento bárbaro contra os animais.

No Oeste dos Estados Unidos, por exemplo, são centenas de milhares de animais maltratados que morrerão porque não há neste momento suficiente pessoal para processá-los e vendê-los no mercado. Estes animais vão ser mortos. É uma barbaridade, como toda a indústria da alimentação. Esta indústria se constrói sobre o sofrimento. Nas fábricas, há até 5000 porcos ou frangos que se encontram encerrados e são alimentados com medicamentos e patógenos. É um problema bastante grave. Existe uma conexão básica entre aquilo que ocorre a nível ecológico (como a contaminação dos mares) com a destruição da agricultura. Cabe ressaltar que essa transformação da agricultura tem a ver com o deslocamento forçado de milhões de camponeses e camponesas. Ondas gigantes de migração. Esta gente não abandona suas terras ou países sem nenhum motivo. As pessoas abandonam seu país porque são obrigadas, porque suas terras foram privatizadas e esse é o motivo fundamental das ondas de migração mundial. São mudanças gigantes e estruturais as que necessitamos defender. Devemos começar a pensar em nosso compromisso em dois níveis. Um nível é imediato. Há necessidades imediatas que devem ser resolvidas com a ajuda mútua. Necessitamos proteger as populações que estão em perigo imediato e que se encontram marginalizadas por esta crise. No outro nível, devemos pensar a longo prazo porque uma sociedade pós-crescimento, pós-capitalista é uma sociedade na qual temos que começar a construir o processo de produção e reprodução num sentido amplo. Desde a casa até a fazenda. Inclusive até a relação com a natureza e os animais. Isso supõe um esforço coletivo muito forte.

Meu trabalho nos últimos anos teve seu enfoque de maneira persistente no tem das políticas dos comuns. Entendendo os comuns como um princípio cultural que se refere a uma sociedade na qual coletivamente tomamos decisões os meios de reprodução e podemos definir sobre os temas mais importantes de nossas vidas. Não sendo recipientes passivos que se encontram alienados sobre decisões que se tomam de cima para baixo. Vimos e de fato temos uma história de mais de 500 anos de atividade do capitalismo que nos diz que temos de nos comprometer, não somente como indivíduos mas como um coletivo que possui como propósito a reconstrução do processo de reprodução social.

Devemos mudar a relação com os recursos e com as riquezas que estamos produzindo até nosso “bem viver”. Colocar no centro desta coletividade a reprodução. Temos que reconstruir a reprodução de uma maneira mais cooperativa sem que nos isole a cada um em casa.

Seria bom dizer algo sobre o tema do crescimento que está muito conectado ao tema do consumismo. Existem muitas críticas aos indivíduos por ser consumistas. Inclusive pessoas pobres que não têm muitos recursos e que vão gastar o pouco que têm em comprar coisas. Isso é consequência do empobrecimento que estamos sofrendo. O consumismo é a resposta a esse empobrecimento social. As relações sociais são tão insatisfatórias que nos fazem sentir como perdedores todos os dias. Assim é que estas necessidades não cumpridas se refletem no consumismo. Para sentir algum tipo de poder, nos é oferecida a capacidade de comprar coisas. Caso pensemos numa sociedade onde nossas relações sociais com o conjunto da sociedade fossem completas e nos preenchessem, não teríamos que comprar cinco pares de calças para poder preencher essa faltar que sentimos em nossa relação com o mundo. A mercadoria, a “commodity”, se torna a maneira de preencher essa falta que sentimos. Isso tem a ver com o crescimento, por isso é tão importante mencioná-lo.

Devem ser amplificados os processos de reconstrução da sociedade junto com nossa capacidade de cooperação. Obviamente, já há muitas pessoas trabalhando e não é que estejamos iniciando desde a estaca zero. Há movimentos muito importantes que estão trabalhando neste momento. O que devemos fazer é conectar nossas lutas e trabalhá-las juntas. Isso é fundamental, porque esta união de lutas nos pode dar a capacidade de encontrar novas possibilidades para fazer surgir as coisas que queremos.

Não se pode afirmar que exista um só modelo. É importante citar os zapatistas: “um não e muitos sim”. Temos que muita clareza coletiva sobre o que não queremos ver na sociedade que queremos construir. Uma sociedade que não queremos que destrua o planeta e que não seja injusta. Temos que reconhecer a existência de muitas trajetórias históricas e muitas lutas.

O Bem Viver, por exemplo, conforme dizem na América Latina, pode ser atualizado de muitas maneiras distintas em cada território. Esse é o trabalho mais criativo. Ver como estas lutas e como esta reconstrução coletiva é um trabalho criativo que inclui essa diversidade.

Se não queremos condenar as crianças a um futuro terrível, temos que direcionar a atenção para o que está acontecendo agora com esta pandemia. É um sinal de alarme que devemos escutar e temos que transformar esta situação com uma premissa importante: os que vão determinar a saída desta pandemia não podem ser o que nos levaram à destruição deste planeta. Não podemos encarregá-los de encontrar as soluções. Nós devemos ser participantes destas soluções para a saída da crise.

EIS: Como podemos aproveitar este contexto para dar passos em direção a uma sociedade pós-crescimento sem que a saída desta pandemia esteja totalmente apropriada pela mesma elite econômica e política que nos levou aí?

S.F: Como vinha dizendo, esta pandemia visibiliza uma crise que já havíamos anunciado. Sua existência é de conhecimento de todos. Por isso vimos que as áreas da sociedade mais afetadas são as pessoas que cuidam da terceira idade. Faz muitos anos que meu trabalho tem como enfoque o cuidado deste tipo de população. Em muitas partes do mundo o tema do cuidado das pessoas mais velhas é terrível. As pessoas já estavam morrendo. A crise nesta área da sociedade já existia. O sistema capitalista se encarrega de desvalorizar sistematicamente a vida e o aplica mais a algumas pessoas que a outras.

Os idosos das classes trabalhadoras já não são produtivos. Com o neoliberalismo cortaram os orçamentos e os recursos, sobretudo das famílias trabalhadoras. São os adultos mais velhos as vítimas centrais destas políticas. Não é um acidente que haja um desastre com os idosos em meio a esta crise da Covid-19.

Sempre existiram muitos erros em termos de acessos à saúde, a medicamentos. Também muitos abusos de parte do pessoal que atende às pessoas mais velhas. Estes incorrem em abusos.

Os hospitais não estavam preparados porque havia se tomado a decisão política de não ter os recursos nos hospitais. Por tal motivo faltaram as coisas mais necessárias.

É muito importante que o povo entenda esse elemento. A falta de preparação da sociedade ante um desastre como esta pandemia tem a ver com o que estava passando antes. Isso é resultado de decisões que foram tomadas e nos levaram a esta situação. Decisões como afirmar que o direito à saúde não era tão importante. Entender isso é o que nos pode levar a resolver esta pergunta.

O objetivo principal é dar um salto qualitativo a outro nível. Se alguém vê o que se passou na África, no Sul asiático, na América Latina nos últimos 30 anos, poderá constatar que existiram muitas ondas de epidemias. Uma depois da outra, como resultado da pobreza econômica, o sistema e os ajustes estruturais.

Em todo o mundo colonial houve uma redução da qualidade de vida. O povo foi vítima de muitas epidemias como a meningite, a cólera, o zika, o ebola. Mas agora a pandemia é global. Se não entendemos isso, não vamos estar dispostos a criar o tipo de movimento que necessitamos para transformar a vida cotidiana e nos comprometer com essa mudança de uma maneira muito profunda.

De que maneira devemos atuar quando este sistema se construiu durante séculos e é um sistema que não vai se transformar da noite para o dia? No ativismo do presente podemos dar resposta às necessidades imediatas mas é necessário inclui uma perspectiva a longo prazo. Devemos incluir uma perspectiva de reapropriação das riquezas sociais, de reclamar e reapropriar-se da terra, de retomar o controle sobre a cadeia de produção alimentícia. E voltar a conectar estas lutas. A luta estudantil se deve conectar com as lutas camponesas.

A destruição do ecossistema é central. Hoje a luta social não pode ignorar a destruição do ecossistema. Qualquer luta deve ter uma dimensão ecológica, já que é fundamental para a reprodução. Esse seria o primeiro ponto.

O segundo ponto é que desde o início devemos começar a mudar a maneira na qual vivemos neste mundo. Pessoalmente, me impressionou e escrevi isso em Re-enchanting the World: Feminism and the Politics of the Commons (meu último livro) e em outros de meus trabalhos, tudo o que aprendi das mulheres da América Latina. Especificamente as mulheres que vivem em zonas periféricas das cidades latino-americanas como as favelas e todos estes territórios que ficam nos limites das grandes cidades. Estas pessoas estiveram aí há muito tempo, enfrentando-se com o que hoje estamos enfrentando. É gente que se deslocou porque teve a terra roubada e há muito tempo se deram conta de que o sistema não tinha nada para lhes oferecer.

Claramente, sua conduta poderia ser entrar em desespero. Mas não é assim. Organizam-se coletivamente e em unidade olham como seguir se negando a perder. Criam hortas comunitárias, cozinhas comunitárias e meios para aceder à comida. Nesse processo há um novo tecido social que se constrói. Essas novas relações afetivas e de solidariedade são uma revolução. Porque esse novo poder deste novo tecido social lhe dá habilidade ao povo de se relacionar de uma nova maneira com o Estado. Não como a última linha da pirâmide, mas desde uma posição que obriga ao Estado a soltar algum tipo de controle. Falemos de comida, de educação, de saúde, de agricultura. Sobre tudo isso temos algo a dizer. Sobre o que passa nos hospitais temos algo que dizer. Sobre qual tipo de sistema de saúde queremos. Esses são os passos que devemos dar. Não são utopias. Não são coisas extraordinárias. São coisas que podemos fazer e que nos permitirão ter um tipo de controle sobre nossa forma de viver cotidiana.

EIS: Segundo sua proposta teórica dos “comuns”, quais seria seus aspectos mais importantes? Qual é a diferença entre “comum radical”, “comum reformista” e “comum conservador”? Quais são as maneiras com as quais o Estado pode lidar com estes comuns?

SF: Devemos entender os problemas dos comuns de uma maneira muito crítica. Hoje em dia se tornou uma palavra de moda e há uma tentação em dizer “bom vou esquecer esta palavra e não vou mais usá-la”. Eu resisti a fazer isso. Sei que na história do capitalismo e de nossa sociedade até o presente, cada vez que temos um conceito importante e ele nos é roubado. Pensem na palavra “democracia” e na palavra “feminismo”.

Há um processo permanente de se retirar: chegamos com um conceito, nos roubam e nós ficamos para trás. Não se trata de conseguir uma nova palavra ou um novo conceito. A linguagem e a semântica é um terreno de batalha, um lugar onde se trava a luta. Trata-se de entender as condições para que o conceito “os comuns” não se volte contra nós mesmas.

Quem são as pessoas que conformam estes comuns? São as que têm que tomar decisões sobre a terra, sobre a produção da comida e sobre a maneira na qual se organiza a sociedade coletiva. Pensar em comuns não é sinônimo de total desordem e que a terra se encontre disponível para quem queira tomá-la. Assim não é como se gerem os comuns. A intenção é cuidar e reproduzir os recursos e as riquezas do mundo para poder chegar a uma versão próxima à versão indígena. Trata-se de buscar um equilíbrio que permita ver como vamos utilizar a terra. Porém, ao mesmo tempo, o que vamos fazer para que esta terra siga reproduzindo ao longo prazo e que o ecossistema tenha a capacidade de se reproduzir apesar de nossa presença. Ou seja, que nossa presença num território não pode ser destrutiva. Isso supõe muito trabalho, porque a terra é o comum fundamental. Quando digo terra, falo da maneira como a entendem os camponeses e camponesas da América Latina: são os animais, é a água, são as árvores, é a vida inteira. É o ecossistema completo que vive sobre esta terra.

Podemos começar a criar estes comuns desde uma horta comunitária, por exemplo. Como os zapatistas, como o movimento dos trabalhadores sem terra do Brasil. São exemplos gigantes que existem mundialmente de comuns. São a base fundamental para todo o resto. A reconstrução do conhecimento coletivo se perdeu junto com a produção de novos conhecimentos. A produção do saber hoje está absolutamente comercializada. Nos Estados Unidos, alguém fala de “universidade” como se fosse uma empresa. É preciso descomercializar a produção do conhecimento e do saber.

Passa o mesmo com os comuns da saúde. Como podemos definir o que significa estar em boa saúde? Quais são as condições? Isso deve ser definido coletivamente pela própria comunidade. Na América Latina houve muito trabalho de recuperação da memória coletiva. Reconstruíram a história desde abaixo. Esta perspectiva histórica é a recriação de uma memória coletiva, que é a construção de um sujeito coletivo e de um interesse coletivo. E essa trajetória histórica é a que nos dá este sujeito coletivo. Ela dá sentido a qualquer luta. A memória coletiva nos faz entender o presente e nos projetar para o futuro com um interesse comum. Se não há terra não há nada. Não há conhecimento. Não se poderia desenvolver todo o tema de saúde própria. Isso é o que queremos dizer por comuns.

EIS: Se queremos coletivizar as tarefas domésticas. Como encontrar um equilíbrio entre essa socialização que nos leva a pensar que o trabalho doméstico é um tema íntimo? Como podemos organizar uma sociedade pós-capitalista? Como se organizam as tarefas de reprodução nos comuns? Como se pode organizar democraticamente a repartição e a divisão do trabalho nos comuns? Essa repartição das tarefas se baseia numa teoria do valor sobre uma divisão ou especialização do trabalho?

SF: Isso pode ser respondido pensando no que é possível hoje. É muito difícil conceber até onde podemos ir. Mas se temos que trabalhar dentro do possível, temos que analisar já há muitas coisas possíveis. As pessoas perguntavam ao Marx: O que é o comunismo? Ele dizia: “Não é a imagem de uma sociedade no futuro, é o trabalho cotidiano que transforma o status quo”. Isso é o que está sendo transformado, os poderes sociais que temos. E isso transforma as possibilidades que temos para seguir avançando em nossa visão. Ou seja, é passo a passo que podemos construir esse futuro.

Neste momento nossa imaginação está como congelada. Está muito limitada. Porque interiorizamos essa ideia de que não temos alternativa, de que não há possibilidade. Há 500 anos que estamos no capitalismo e isso se naturalizou. Temos que revolucionar nossa existência em tantos níveis somente para poder pensar mais além. Temos que ser um pouco mais humildes e concretos nos passos que é preciso dar. Redescobrir os possíveis.

É construindo que vamos desafiar as possibilidades e as dificuldades concretas. Temos que nos distanciar da ideia de que há um só modelo, mas temos que ser muito firmes com o que não é aceitável. O que queremos? O que se deseja? Isso é algo que se deve construir de maneira permanente.

Há muito trabalho que se fez na socialização de temas como o trabalho doméstico. Se fez avançado muitíssimo nos últimos anos. O povo teve que responder a uma situação permanente de crise nos últimos 30-40 anos. O neoliberalismo é um processo de recolonização global que afetou tantas zonas do mundo e que empobreceu massas gigantes de pessoas.

Ante as emergências surgiram novas estruturas que responderam a esta situação. Não há um melhor exemplo que a América Latina. Mas vimos algo muito similar na África, por exemplo, no tema da agricultura urbana. Iniciou-se no final da década de 1980 nesse continente como uma resposta ao deslocamento forçado das pessoas de fora de suas terras. Os que chegaram aos centros urbanos gigantes tiveram que transformá-los em hortas comunitárias. Necessitavam qualquer pedaço de terra para produzir comida. As mulheres deslocadas em muitos casos tomaram estas terras para semear. São milhares de mulheres que sabem que tem que semear algo.

Agora está acontecendo algo parecido em Nova York. Penso que quando chegar o verão em Ottawa também farão o mesmo. Sei que é difícil porque vocês têm um verão muito curto mas é preciso inventar maneiras de produzir comida. Muita gente pensa que não tem terra porque vivem num apartamento. Mas há os que não têm nem terra nem apartamento.

Não podemos abandonar a ideia de que é necessário ainda que seja um pedacinho de terra. Não podemos depender do mercado para comer e para as reproduções básicas. Temos que sair do mercado para as necessidades básicas da reprodução. Num apartamento você pode começar a semear tomate. Também existem as hortas coletivas comunitárias. Tudo isso são grandes passos de início que demonstram que a produção e o abastecimento de comida pode ser um projeto coletivo que não isole o povo.

Neste processo também devemos nos perguntar como podemos defeminizar a reprodução. Compartilhar o trabalho é importante. Mas é preocupante quando se torna este o único problema. O tema fundamental é nossa relação frente ao capital. A questão da divisão do trabalho está ligada ao capital. Se somente nos repartimos a pobreza, se somente desfeminizamos o trabalho mas deixamos umas condições onde o reprodutivo não tem recursos; não fazemos muito.

Compartilhar as tarefas com seu esposo em casa é muito importante, mas se seguem isolados e não é coletivo, não é suficiente. Claro, quando temos um companheiro temos que compartilhar as tarefas domésticas. Hoje em dia muitas mulheres vivem sozinhas. Em todo o caso, é um aspecto muito pequeno da solução. A solução vai muito além.

As divisões do trabalho baseado em gênero, na orientação sexual, na etnia se devem superar em cada etapa da luta. Estas iniquidades, estas hierarquias são os obstáculos centrais que não nos permitem avançar. A homofobia, o sexismo e o racismo são os obstáculos centrais que nos impedem nos juntar e nos dar conta de nosso poder coletivo. A cada passo é preciso que lutar contra o racismo, o sexismo e a homofobia. É uma necessidade para dar o outro passo.

Como vamos trabalhar e como vamos utilizar o que vamos produzir? Temos que tomar decisões coletivas sobre isso. A maneira como nos relacionamos com o mundo e com nosso corpo também transforma.

EIS: Devemos planejar esta mudança global ou devemos nos concentrar nestas coisas para confiar numa mudança?

SF: Não, é preciso fazer a mudança. Estão ocorrendo coisas, mas temos que seguir pensando como vamos projetar essa luta. É um processo que não está em seus primeiros passos, já existe.

Se revisada a situação na Amazônia, no Chile ou no Equador alguém pode constatar que nos últimos 15-20 anos existem redes de mulheres camponesas ou indígenas, movimentos feministas, movimentos ecologistas, movimentos sem terra que se juntaram com muita liderança das mulheres.

Isso é importante de ser dito. Mulheres que se declaram feministas e que estão conectadas com movimentos feministas em todo o mundo.

Os movimentos indígenas e camponeses estão se juntando com os movimentos urbanos. Pensem nas mulheres sem terra do Brasil. Elas têm um monte de trabalho em território coletivo mas também estão abrindo lojas nas cidades. Ali vendem o que produzem. E também conectam suas lutas. Isso já está passando. Nesta circulação e conexão de distintas lutas é onde devemos colocar nossa energia.

Nos Estados Unidos ou Nova York (onde vivo) se veem muitos movimentos ecologistas. Muitos movimentos que foram inspirados pelo princípio dos comuns. Estão envolvidos na ajuda mútua e é muito impressionante. As pessoas pegam sua bicicleta e recolhem comida para levar a outra parte. As pessoas estão se perguntando como pode ir além do imediato. Estão buscando novas maneiras de produzir. Estão criando novas formas de produção e novos tipos de relação. Estes são os primeiros passos da construção. É o desafio de hoje.

Comecei dizendo que devemos trabalhar em dois níveis: no imediato e no de longo prazo. Há pessoas que não têm nada. Crianças com fome em todas as partes. Comunidades afro e latinas que estão se vendo afetadas pela saúde. Nesse processo de resposta imediata também temos que construir outra maneira de organizar a produção. Assim criamos outras maneiras de fazer. A cada passo que damos, nossa imaginação se expande.

Quando você está na rua com 100 000 pessoas, você imagina as coisas de outra maneira que quando só se está pensando um novo mundo sentado em seu quarto. Não tem a mesma perspectiva das possibilidades. Por exemplo, eu não teria podido escrever Re-enchanting the World: Feminism and the Politics of the Commons se não tivesse conhecido o movimento de mulheres que me levantaram e me tiraram das tentações do pessimismo. Me afastaram dessa tentação de dizer que é demasiado tarde. Se é demasiado tarde hoje, amanhã há outro dia. Isso é muito importante.

EIS: O conceito dos bens comuns é problemático se não relacionado com o exercício da lógica colonial. É importante revisar a concepção crítica do comum e de comunidade em termos do que a colonização fez frente a isso. À luz dessas relações de poder coloniais, territórios comuns para quem?

SF: Estou de acordo. Para responder essa pergunta é realmente essencial a relação política das lutas que há entre as comunidades e os territórios nos quais vivemos. Pensarmos o território em relação à sociedade que a habita. Mas o desafio fundamental é criar comunidade, fazer conexões entre as comunidades e a luta.

Idealmente, devemos trabalhar em construir o tipo de luta que queremos criar. Esta não é a reconstrução de algumas hierarquias. O comum significa reconhecer projetos históricos. Quem esteve aqui? É preciso levar em conta as necessidades e os desejos das pessoas que estiveram originalmente no território.

Não acredito que isso desqualifique a discussão sobre a criação de uma sociedade na qual possamos compartilhar a riqueza do continente em termos de quem decide e de quem toma as decisões sobre o uso da terra. É possível criar um movimento onde possamos superar algumas das dificuldades que se foram apresentando. Esse é o grande desafio. Se vivemos num mundo que todo o tempo está produzindo miséria, não poderemos esperar nada mais.

No marco desta pandemia não somente há uma conexão com a crise. Também com a necessidade de nos conectar com as diferentes crises. É inevitável. A luta doméstica se torna visível assim como a luta contra a diferença sócia (com milhares e milhares de pessoas vivem na rua). Estar em casa é um privilégio escandaloso que tem que ser questionado e tem a ver com a pergunta do espaço e da moradia. Se o conectamos com a quantidade de migrantes que não têm sua documentação completa, como se pensa no acesso à saúde se nem sequer se tem uma documentação?

Estas são crise que temos que levar em conta e que evidenciam a crise material pela que atravessamos. O povo não está se cuidando da Covid porque tem que assegurar seu acesso aos alimentos. A crise nos demonstra quanta miséria leva em si o capitalismo.

EIS: Escutamos alguns aportes seus sobre a arquitetura. Poderia nos comentar sobre isso?

SF: Há um livro muito bonito de Dolores Hayden (A grande revolução doméstica) sobre o feminismo dos anos 70. Ela olha o tipo de discussão que havia nesse momento no movimento feminista dos EUA. Havia muitos limites. O movimento ainda estava muito diferenciado e se pensava em como romper com o individualismo. Me parece que isso é algo que devemos pensar.

Devemos pensar na exclusão social. Isso é fundamental. Devemos ir além dos lares, das casas. Nós não falávamos sobre a cozinha, sobre as habitações e como está dividida uma casa. Falávamos sobre a relação com a rua e com o bairro.

Vi na América Latina a continuidade das casas com as ruas. Isso é o que tem que passar. As ruas também devem ser socializadas. Não deve haver separações entre as casas. As feministas já nos colocamos a pensar a reconstrução de nossa vida reprodutiva. Então entendemos quais são as casas que necessitamos. Estamos pensando num reprodução de acordo. Como fazemos para estar juntas e para repensarmos esse habitat no qual reproduzimos nossas relações sociais?

16/07/2020

www.colombiainforma.info

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