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FONTE: Socialist Worker | 19/08/2020 | TRADUÇÃO: Charles Rosa

O presidente do Mali, na África Ocidental, apoiado pela França, renunciou na terça-feira depois que os soldados o sequestraram de sua casa. A demissão de Ibrahim Boubacar Keita, conhecido como IBK, vem depois de meses de protestos em massa contra a corrupção e a falta de democracia.

A notícia de sua remoção foi recebida com júbilo por manifestantes antigovernamentais na manhã da quarta-feira.

Os líderes militares disseram que trariam uma transição política e promoveriam eleições dentro de um “prazo razoável”.

Milhares se juntaram a protestos anti-Keita no Mali, um país de 20 milhões de habitantes, desde junho.

Após uma pausa, eles recomeçaram recentemente. As forças de segurança dispararam gás lacrimogêneo e usaram canhões de água para dispersar centenas de manifestantes que acamparam em uma praça na capital Bamako na última quarta-feira.

A oposição declarou que realizaria protestos diários nesta semana, culminando em um ato massivo na sexta-feira.

Mas antes que isso pudesse acontecer, os soldados se amotinaram em uma base importante e apreenderam Keita.

Derrubado

O Mali está em crise política desde o final de abril. O tribunal constitucional anulou os resultados eleitorais há muito adiados em dezenas de mandatos e entregou mais delas ao partido de Keita.

Keita foi eleito pela primeira vez em 2013, mas se tornou impopular. Ele tem confiado cada vez mais na França, a ex-potência colonial. As eleições fraudadas aumentaram as queixas sobre corrupção, pobreza generalizada, falta de ação contra o coronavírus e o papel do governo em assassinatos sectários pelas forças de segurança.

Em grande parte liderado pelo líder islâmico Mahmoud Dicko, milhares de pessoas protestaram em Bamako em 5 de junho. Um mês depois, os manifestantes bloquearam pontes importantes na capital, invadiram as instalações da emissora estadual e atacaram o parlamento.

Eles carregavam cartazes como “IBK renuncie”, “O ditador não vai ficar”, além de faixas pedindo a libertação de presos políticos. “Mais dinheiro para a educação” e “O fim do coronavírus” também estavam entre suas reivindicações.

Seguiram-se três dias de combates entre manifestantes e forças de segurança, deixando 11 mortos e 158 feridos, de acordo com uma contagem oficial.

A coalizão de oposição, chamada de “Movimento 5 de junho – Reunião de Forças Patrióticas”, inclui muitos ex-apoiadores de Keita. As demandas de seus líderes não vão muito além de uma reorganização das elites governantes.

Seu sucesso veio de parecer representar o sentimento de baixo.

Dois perigos principais agora estão claros.

Mali é ocupado por milhares de tropas estrangeiras que afirmam se opor a grupos terroristas.

A França enviou milhares de soldados em janeiro de 2013 para combater as forças islâmicas que vieram da Líbia após a guerra da Otan naquele país. Agora tem 5.100 soldados em Mali ligados a uma coalizão internacional que inclui os Estados Unidos, Alemanha, Canadá e a “força G5” do Níger, Chade, Mauritânia, Burkina Faso e Mali.

O Ministério da Defesa da Grã-Bretanha disse em junho: “O pessoal da RAF Odiham foi destacado para funções não relacionadas a combate no Mali desde 2018, com a aeronave contribuindo com uma capacidade logística única para a operação liderada pela França.

“Os Chinooks e a tripulação permitem que as tropas francesas cubram um campo de operações muito maior.

“Atualmente, os Chinooks estão sendo pilotados por tripulações do Esquadrão 18 (B) e são apoiados por pessoal proveniente da RAF e do Exército Britânico.”

Os ingleses, os franceses e outros apoiaram Keita – e lamentam sua queda.

O ministro da Grã-Bretanha para a África, James Duddridge, tuitou: “O Reino Unido se opõe a qualquer tentativa de derrubar o governo pela força”.

O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, disse que “condena nos termos mais veementes este grave acontecimento”.

John Peter Pham, o enviado dos Estados Unidos à região do Sahel, disse no Twitter que os Estados Unidos “se opõem a todas as mudanças extra-constitucionais de governo”. Embora presumivelmente não na Bolívia, Venezuela, Líbia e Iraque, para citar apenas alguns exemplos recentes.

Submissão

Essas forças procurarão submeter qualquer novo governo à sua vontade.

Além disso, os militares não agirão no interesse dos trabalhadores e dos pobres. Eles cuidarão de seus próprios interesses.

No Sudão, em fevereiro de 2019, os militares removeram o presidente Bashir após protestos massivos. Mas eles se apegaram a vastas áreas de poder desde então.

A ação da classe trabalhadora independente é possível.

O governo ordenou a reabertura das escolas em 2 de junho, apesar do coronavírus. Mas milhares de professores se recusaram a trabalhar.

Eles exigiram medidas para proteger alunos e professores da pandemia e aumentos salariais que foram formalmente anunciados pelo governo há quatro anos, mas nunca pagos. Os professores foram uma parte importante das manifestações que quebraram Keita.

Essa resistência dá esperança para o futuro.

Charlie Kimber é dirigente do Socialist Workers Party (SWP)


O previsível golpe de Mali deixa um caminho pouco claro para o governo civil

FONTE: The Conversation | 20/08/2020 | TRADUÇÃO: Charles Rosa

Os soldados destituíram o presidente do Mali, Ibrahim Boubacar Keita, que agora renunciou, ao lado do primeiro-ministro do país. Moina Spooner do The Conversation Africa pediu a Bruce Whitehouse, que realizou estudos sobre golpes e extremismo violento no Mali, para compartilhar suas idéias sobre o que causou este golpe e o que precisa acontecer a seguir para garantir a estabilidade do país.

O que preparou o terreno para o recente golpe no Mali e quem o liderou?

Existem muitos fatores de longo prazo, mas a razão imediata para o golpe foi o péssimo desempenho de Ibrahim Boubacar Keita como presidente. Quando eleito pela primeira vez para o cargo em 2013, Keita tinha o currículo ideal, tendo ocupado quase todos os cargos importantes no governo do Mali (ministro das Relações Exteriores, primeiro-ministro, presidente da Assembleia Nacional). No entanto, ele subsequentemente não abordou as ameaças existenciais ao povo de Mali e ao estado, desde a violência política à corrupção.

Sua promessa de campanha de 2013 de erradicar a corrupção e restaurar a soberania dilapidada do país rapidamente se mostrou vazia. Escândalos sobre a aquisição de um novo jato presidencial e contratos duvidosos de defesa deram a impressão de que seu governo não seria mais transparente ou justo do que os anteriores.

A insegurança já era forte nas regiões do norte do Mali quando Keita assumiu o cargo, principalmente devido a militantes jihadistas e gangues criminosas. Nos sete anos seguintes, a situação piorou continuamente à medida que bombardeios nas estradas e ataques a alvos do governo (incluindo postos militares e policiais, prisões e prédios administrativos) se espalharam para outras partes do país. Muitos soldados foram mortos por militantes e os soldados não tinham os suprimentos e veículos de que precisavam para continuar a luta.

A violência resultou em uma grande crise humanitária. No final de 2019, a ONU estimou que 3,9 milhões de pessoas precisavam de assistência e proteção – um aumento de 700 mil desde o início do ano.

Assim, malienses comuns, e também militares, ficaram frustrados com o governo de Keita. Como consequência, desde junho houve protestos de rua persistentes e massivos em Bamako, a capital, exigindo a renúncia de Keita.

Ainda não sabemos muito sobre os oficiais que lideraram o golpe. Eles se autodenominam Comitê Nacional para a Salvação do Povo e parecem ter uma posição superior (coronéis e possivelmente um general) do que os oficiais que lideraram golpes anteriores no Mali. O Coronel Assimi Goita se anunciou como o novo líder.

Esta não é a primeira vez que o Mali assiste a um golpe. O mais recente foi em 2012 e, como este, resultou em controle militar. Como você classificaria a transição para um governo civil após o golpe de 2012?

Em muitos aspectos, o golpe de 2020 se assemelha ao seu antecessor de 2012. Ambos começaram como motins na maior base do exército do Mali em Kati, nos arredores de Bamako. A resposta internacional a ambos os golpes foi semelhante: declarações de condenação e promessas de sanções por parte do organismo regional da África Ocidental, CEDEAO. E ambos pareceram angariar rápido apoio popular. Uma pesquisa realizada após o golpe de 2012 mostrou que cerca de dois terços dos residentes de Bamako apoiaram a junta. Os protestos em massa que levaram a este golpe indicam que muitos malianos também apoiam a mudança.

Uma grande diferença é que a junta de 2020 teve o presidente Keita e seu primeiro-ministro presos no primeiro dia e o presidente anunciou sua renúncia logo depois na televisão. Em contraste, a junta de 2012 nunca conseguiu capturar o presidente que depôs (Amadou Toumani Touré), deixando o resultado do golpe incerto por vários dias.

Embora a transição para o regime civil em 2012 pareça ter acontecido de forma relativamente rápida – levou cerca de um mês para a CEDEAO negociar a transferência para um governo civil interino – ela mascarou a interferência contínua dos militares que mantiveram considerável poder nos bastidores por muitos meses. Por exemplo, apenas algumas semanas após o golpe, os militares orquestraram um ataque da multidão que enviou o presidente interino ao exterior para tratamento médico.

Essa situação perdurou até 2013, quando teve início a intervenção militar francesa contra militantes jihadistas. De minha própria análise, a presença de tropas francesas desencorajou os militares do Mali de se intrometerem abertamente na política.

Em agosto de 2013, o presidente Keita foi eleito presidente e, até agora, parecia ter sido capaz de manter os militares sob controle, mas os oficiais militares que lideraram o golpe parecem ter sido encorajados pelos protestos de rua dos últimos dois meses.

Como a transição para um governo civil desta vez deve ser tratada para garantir a estabilidade política no país?

A transição para um governo civil não será tranquila.

Há uma desconfiança significativa do público em Bamako em relação aos políticos. Segundo a constituição do Mali de 1992, o presidente da Assembleia Nacional deve se tornar presidente interino e organizar novas eleições após a renúncia de um presidente, mas o presidente Keita dissolveu o órgão antes de renunciar. Isso não deixa um sucessor óbvio.

A constituição também exige que novas eleições sejam organizadas em um período muito curto – apenas 40 dias – após o estabelecimento de um governo provisório. Cumprir este prazo revelou-se impossível em 2012 para o Mali, um país pobre dilacerado pelo conflito, e seria igualmente impossível em 2020.

Isso deixa o caminho a seguir incerto e requer negociações entre a junta, grupos da sociedade civil e partidos políticos do Mali, governos estrangeiros e organismos internacionais.

Quais são as implicações regionais prováveis, se houver, deste golpe?

Os governos da África Ocidental não gostam de ver um presidente, especialmente um eleito, destituído do poder por seus próprios militares. A CEDEAO continuará a emitir declarações fortes e a falar sobre sanções. Isso também ocorre porque os chefes de estado em toda a região não querem que seus próprios oficiais militares tenham ideias sobre como emular o que aconteceu no Mali.

No entanto, vimos em 2012 que a CEDEAO não tinha vontade nem mesmo capacidade para isolar o Mali economicamente. Não espero que isso tenha mudado, mas as apostas são diferentes desta vez: o Sahel é um lugar muito mais perigoso em 2020 do que era há oito anos. Eu esperaria que a França e a ONU, que têm milhares de soldados no país, fossem os verdadeiros motores de uma resposta internacional a este golpe.

Bruce Whitehouse é professor associado na Lehigh University.

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