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Quatro manifestantes morreram na quinta-feira, 13 de agosto, depois do primeiro dia de mobilização contra a candidatura a um terceiro mandato de Alassane Ouattara. O Observatório Internacional traduziu dois artigos sobre a crise política na Costa do Marfim. O primeiro é um editorial de um jornal de Burkina Faso – L’Observateur Paalga -, o qual vê o país vizinho como “um barco que se dirige diretamente aos recifes”. O segundo texto é assinado pelo Militant Côte d’Ivoire, um combativo grupo da esquerda revolucionária marfinense. Confira abaixo!

PROTESTOS CONTRA O TERCEIRO MANDATO DE OUATTARA: RUMO A UMA NOVA VERSÃO DE 2010?

FONTE: L’Observateur | 13/08/2020 | TRADUÇÃO: Charles Rosa

“E a questão que está na boca de todos é saber que atitude terão as autoridades marfinenses em relação ou contra esta manifestação que, sem dúvida, não será a última. Será que ADO [as iniciais de Alassane Dramane Ouattara] vai adotar um perfil de bom príncipe ao deixar as ruas se expressar … ou vai jogar a carta da firmeza contra aqueles que querem impedi-lo de concorrer a um terceiro mandato?” Assim nos perguntávamos em nossa edição de ontem.

Com a evolução da situação, cabe fazer outra pergunta tão preocupante, mas que continua relevante: A Costa do Marfim caminha para um remake d crise política de 2010, que deixou quase 3.000 mortos, centenas de milhares de feridos e tantos exilados? [O então presidente Laurent Gbagbo – cujo partido era associado à Internacional Socialista – contestou a vitória de Alassane Ouattara (cujo partido assumia posições do centro liberal), reconhecida pela comunidade internacional]

De qualquer forma, desde que o Presidente Alassane Ouattara anunciou em seu discurso à Nação em 6 de agosto, um dia antes do Dia da Independência, sua candidatura para um terceiro mandato, é o destino de toda a Costa do Marfim que está em jogo. Ele pode muito bem se apresentar como candidato contra sua própria vontade, citando um caso de força maior após o desaparecimento, no início de julho, de Amadou Gon Coulibaly, seu primeiro-ministro nomeado inicialmente para vestir a camisa do RHDP às próximas eleições presidenciais, isso não foi suficiente para acalmar a ira de seus oponentes, que denunciam um golpe contra a Constituição.

Na verdade, o artigo 55 da lei fundamental da Costa do Marfim limita o número de mandatos a dois; mas para os partidários do presidente cessante, a revisão constitucional em novembro de 2016 zera as contagens de seu campeão e, portanto, nada o impede de concorrer a um “primeiro” mandato com a nova Lei Básica. Menos do que essa disputa político-jurídica entre os dois campos, é o confronto que ocorre nas ruas que suscita muitas preocupações.

Assim, como um navio indo direto para os recifes, o país de Houphouët Boigny está lentamente se atolando em outra crise política com um desfecho incerto. A classe política marfinense como um todo será capaz de se erguer acima dos interesses partidários, individuais e egoístas para favorecer a estabilidade do país? Nada é menos certo. Para uma nação que acaba de emergir de uma primeira grande crise política, seria uma pena se seus líderes não soubessem como aprender as lições necessárias para promover a paz e a harmonia nacional. Sem querer fazer o papel de Cassandra, tudo parece indicar que, na situação atual, é o argumento da força que corre o risco de assumir todas as formas pacíficas de resolver a crise atual que se prepara às margens da lagoa de Ebrié. Mas a que custo?

Issa K. Barry


LANÇAMENTO DO MOVIMENTO CONTRA O TERCEIRO MANDATO

FONTE: Militant Côte d’Ivoire | 13/08/2020 | TRADUÇÃO: Charles Rosa

Em todas as cidades do interior, e na maioria dos distritos de Abidjan, está lançado o movimento contra o terceiro mandato de Alassane Ouattara.

Aboisso, Bonoua, Dabou, Daoukro, Facobly, Ferké, Korhogo, Ouragahio, Tiébissou e a rodovia do norte paralisaram a circulação de veículos devido a vários bloqueios de estradas e movimentos de cidadãos indignados.

Porém, percebe-se que grande parte da população não está (ou ainda não está) em movimento e teme o surgimento da violência.

Em nossa opinião, para expandir o movimento, devemos:

  • Apelar a uma luta comum integrando todos os habitantes deste país, nortistas e sulistas, nacionais e estrangeiros, contra Alassane Ouattara e a sua política que beneficia os ricos e fere todos os pobres; Ouattara traiu as populações do Norte para permitir que uma pequena camarilha enriquecesse, ele deve pagar por isso.
  • Propor uma alternativa crível à política de Ouattara com um programa que vá ao encontro das aspirações de toda a população pobre deste país, tanto marfinense como estrangeira, que está sofrendo os frutos da sua política anti-pobres – por outras palavras, quem pode substituir ADO?
  • Não basta bloquear as estradas: os trabalhadores, funcionários, trabalhadores, trabalhadores devem se organizar e convocar suas organizações para organizar uma greve que garanta um bloqueio efetivo da economia; Só a este preço é que os ricos patrocinadores do nosso senhor, marfinenses e estrangeiros, vão compreender que é hora de encontrarem outro candidato!
  • Apelar à polícia, gendarmes e soldados para apoiarem também o movimento, recusando as ordens dos seus superiores.

Para vencer, não contar somente com os ativistas já comprometidos! Devemos conquistar os corações da parte da população que permanece neutra por uma questão de preservação, ou que ainda apoia erroneamente Ouattara, apesar de suas múltiplas traições aos seus “irmãos” do norte.

Sem isso, o movimento corre o risco de se isolar e se exaurir rapidamente, assim como o movimento dos coletes amarelos na França – com que o regime está contando para sua vitória a fórceps.

Trabalhadores marfinenses, burquinenses, guineenses e malineses da Costa do Marfim, todos unidos na greve contra Ouattara e sua política anti-social!

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