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Os EUA são a maior potência imperialista de mundo, país possuidor de uma imensa classe trabalhadora e das forças produtivas mais desenvolvidas no planeta. Sua importância geopolítica é evidente e se combina cada vez mais com um profundo desenvolvimento de sua luta de classes interna, colocando-o cada vez mais também como um centro internacional da luta política para os socialistas.

Algumas posições vulgares identificam os EUA apenas como o monstro imperialista e esquecem o que se passa dentro da barriga deste monstro. O conjunto de trabalhadores e trabalhadoras deste país representam uma profunda diversidade social e cultural composta por descendentes das populações originárias da América do Norte, europeus, africanos, latino-americanos, asiáticos, árabes, entre diversos outros povos. Povos estes cujas relações históricas entre si se deram de maneira extremamente violenta e racializada, notadamente através dos séculos de escravidão e segregação racial de sua população negra assim como da profunda exploração do trabalho dos enormes fluxos migratórios de trabalhadores latinos a partir do século XX.

O avanço da luta de classes nos EUA

O acirramento da polarização política ocorrida nos EUA é reflexo do avanço da luta de classes em seu interior e sinaliza não somente a crise econômica mundial como também os sintomas da crise de seu próprio imperialismo. Sendo assim, os EUA são parte central das causas da crescente polarização mundial neste início de século XXI ao mesmo tempo que também refletem internamente os efeitos desta polarização. O histórico levante antirracista que sacudiu o país após o assassinato de George Floyd se desenvolveu em um terreno no qual as estruturas da sociedade norte-americana já estavam bastante questionadas pela crise no mundo do trabalho e pelos sintomas da completa mercantilização da vida no país.

As atuais lutas por um serviço de saúde universal, pelo pagamento digno das horas de trabalho, contra as guerras imperialistas, contra o fechamento das fronteiras e a perseguição aos imigrantes, entre outras, também são parte deste cenário de disputa sem precedentes nos EUA desde quase um século. Nesse contexto, e após décadas sofrendo duros ataques, os socialistas norte-americanos voltam com força à arena política e ganham cada vez mais relevância no centro das disputas nesta polarização crescente.

Este cenário de crise balançou o até então sólido sistema bipartidário, levando à derrota do antigo establishment do Partido Republicano pela extrema direita representada por Trump e ao enfraquecimento do establishment do Partido Democrata com o crescimento de setores de esquerda e até mesmo socialistas. A velha forma de governar da burguesia estadunidense baseada na ideia de “dois corpos com uma só cabeça” acabou com a ascensão de Trump e o caráter organicamente autoritário de sua política tem levado à polarização e radicalização do movimento de massas.

Esta situação é resultado da crise multidimensional que vive o sistema capitalista global, na qual crises de diferentes aspectos se combinam. A crise econômica, a crise dos regimes democráticos burgueses, a crise climática, a crise sanitária, entre outras, formam as condições de uma tempestade perfeita que leva a consequências profundas nos países imperialistas.

A perda de hegemonia do imperialismo norte-americano, que já não consegue submeter militarmente todo o planeta, também é determinante para explicar este cenário. É importante notar que a burguesia mundial não é um bloco monolítico e atua com distintas vias para enfrentar esta situação. Uma destas vias é a da extrema-direita. Nesse processo, o crescimento da extrema-direita norte-americana – profundamente racista, xenófoba, misógina e fundamentalista – influenciou um movimento mundial de fortalecimento deste setor, tocando profundamente países como o Brasil, as Filipinas e a Hungria e ameaçando as forças democráticas em todos os continentes.

Este setor protofascista é marcado também pelo negacionismo científico, que se demonstrou na questão climática antes da pandemia mundial – que coloca em risco a própria existência do conjunto da espécie humana no planeta – e fica ainda mais evidente com a recusa de governos como o dos EUA ou do Brasil em aceitarem os protocolos e recomendações sobre a Covid-19. Já são quase 200 mil mortos nos EUA e mais de 120 mil mortos no Brasil, números terríveis que são consequência das abordagens irresponsáveis de Trump e Bolsonaro.

Por outro lado, as consequências da crise multidimensional impulsionaram também a radicalização do movimento de massas, o crescimento da organização antirracista e de uma consciência socialista, que se demonstram com o surgimento de novos parlamentares e candidaturas afro-americanas e latino-americanas em ruptura com o establishment como Alexandria Ocasio-Cortez e Ilhan Omar, entre outras.  

Trump e o fortalecimento do protofascismo

Em meio ao agravamento da crise pandêmica e da “latinoamericanização” estrutural da sociedade norte-americana, é bastante difícil que se volta à antiga normalidade da democracia burguesa. Em parte, isso ocorre porque uma derrota de Trump não significará o fim do curso ultradireitista que hoje hegemoniza o Partido Republicano. E, por outro lado, um possível governo de Biden não terá outra alternativa que não manter a política imperial dos EUA e a defesa das grandes corporações que o dominam.  

Neste cenário de crise interna, intensificado pela acirrada disputa geopolítica com a China, nenhum hipotético governo desta potência imperialista poderá fazer mudanças estruturais nos temas da desigualdade social e do racismo, o que levará inevitavelmente a ainda mais medidas de ajuste contra a classe trabalhadora, em especial contra seus setores mais explorados e oprimidos.

A crise fez surgir novos grupos protofascistas que levantam ideologias ultraconservadoras anticomunistas, racistas, machistas, armamentistas e negacionistas que se espalham não somente entre uma burguesia reacionária, mas também entre setores médios pauperizados e operários desesperados com as consequências da crise. Uma das características desta extrema-direita no poder é a propagação de mentiras e manipulação de informações através da promoção de um pseudo-populismo que agita o ódio contra opositores políticos e determinadas comunidades. A situação política dos EUA é parte da totalidade do cenário mundial e não pode ser vista apartada disso.

A Convenção Republicana deu inúmeros sinais de alerta, com Trump utilizando a Casa Branca como palanque de um modo sem precedentes e aprofundando sua retórica do medo, convidando o casal branco de St. Louis que apontou armas para manifestantes antirracistas  e rotulando a candidatura democrata de Joe Biden e Kamala Harris como um “cavalo de Troia” que esconderia em si o perigo vermelho representado por Sanders, AOC, Ilhan Omar e outros setores de esquerda. Retomando a ideia de ameaça comunista presente por décadas na mentalidade da população estadunidense, Trump sabe da importância internacional de sua posição e aprofundará cada vez mais seu discurso de ódio, estando disposto a qualquer tipo de manobra, fraude ou ação violenta para se manter no poder.

As tentativas de sabotar o voto por correio são um exemplo do risco representado por Trump para a democracia burguesa estadunidense e indicam também sua narrativa para deslegitimar o processo eleitoral caso seja derrotado, incentivando o aprofundamento da dinâmica de violência política que atinge o país. A extrema-direita norte-americana não se prepara para uma derrota e levará o conflito para todas as esferas antes de recuar em sua escalada.

Tática eleitoral perante a extrema-direita

A afirmação de Trump sobre a campanha democrata não é verdadeira. O Partido Democrata é, sem dúvida alguma, um partido burguês profundamente comprometido com as fortunas de Wall Street e com o sistema de exploração gerador dos grandes problemas sociais tanto nos EUA como fora dele. A nomeação de Biden e Harris é prova deste compromisso e da necessidade de deixá-lo evidente, buscando a todo custo combater e retirar espaço político dos socialistas e outros setores progressistas que se enfrentam com a antidemocrática legislação eleitoral do país.

A existência de Sanders, AOC, Omar e tantos outros políticos independentes só pode ser explicada pela crise social vivida nos EUA, e seu crescimento não acontece devido ao Partido Democrata, mas apesar dele, como pode ser verificado nas inúmeras campanhas eleitorais socialistas pela indicação do Partido Democrata feitas contra a máquina partidária. E isso mostra também que não existe nenhuma perspectiva estratégica para os socialistas norte-americanos dentro do Partido Democrata.

Entretanto, perante o desenvolvimento da radicalização e da enorme ameaça representada por Trump à todos os povos do mundo, é impossível não refletir a importância tática de atuação dentro e fora dos marcos desse partido, agindo de forma flexível e mirando os interesses estratégicos da classe trabalhadora, sejam eles a derrota imediata de Trump nas próximas eleições (que tem enorme importância estratégica) ou a construção de uma ferramenta política independente da classe trabalhadora estadunidense (cujos tempos de desenvolvimento  exigem um debate profundo).

Fatos recentes, como os eventos em Portland, os assassinatos ocorridos em Kenosha ou paralização dos jogos da NBA, ainda que diferentes, demonstram que a radicalização deste processo eleitoral não dará nenhum espaço para setores vacilantes, centristas ou esquerdistas que se abstenham da principal tarefa da classe trabalhadora internacional hoje: derrotar Trump. E os camaradas socialistas dos EUA tem uma responsabilidade histórica com trabalhadores e trabalhadoras do mundo todo perante esta tarefa, que será árdua. Não se pode diminuir o risco representado nas eleições por setores armados da direita, sejam as milícias supremacistas brancas, policiais ou agentes da imigração, nem o risco ainda maior que estes grupos podem representar caso seu projeto político vença as eleições presidenciais.

A hipótese de que o Partido Democrata possa transformar-se momentaneamente em uma frente democrática contra Trump está colocada – isso ocorre justamente porque o establishment está enfraquecido – e o principal sentido de todo este esforço tático é buscar um cenário futuro mais propício para o desenvolvimento das lutas sociais sem a extrema-direita no poder. Em diversos momentos da história, militantes socialistas foram obrigados a golpear o fascismo em conjunto com seus inimigos de classe, como ocorrido na Guerra Civil Russa, na Segunda Guerra Mundial e em tantos outros momentos históricos chave.

As tarefas dos socialistas norte-americanos perante as próximas eleições

As próximas eleições norte-americanas terão um caráter plebiscitário. Não serão eleições nas quais as pessoas simplesmente irão às urnas em defesa do Partido Republicano ou Democrata, mas um referendo sobre Trump e a extrema-direita no poder. Nesse sentido, é essencial acompanhar as massas trabalhadoras que votarão em Biden e que terão sua experiência com este hipotético governo. Não se trata de estabelecer nenhum apoio ou comprometimento com o programa do Partido Democrata, mas sim de realizar uma ação tática pontual tendo em vista que não há nenhuma outra opção concreta para a derrota de Trump.

As campanhas de Bernie Sanders representaram um marco histórico na luta em prol dos interesses da classe trabalhadora no país e abriram espaço para o crescimento de organizações socialistas e para o crescimento de suas ideias entre a população. Entre estas organizações, os Socialistas Democráticos da América (DSA) representam o principal espaço de intervenção, conquistando um crescimento exponencial tanto com o impacto das campanhas de Sanders como com o engajamento de seus militantes e ativistas em campanhas como pelo o Medicare For All. Ainda que seja uma organização em desenvolvimento, o DSA é hoje a principal ferramenta dos socialistas para a disputa política no país, carregando grandes responsabilidades e possibilidades de ampliação entre as comunidades negras e latinas. E será chamado a esta responsabilidade nos próximos meses.

Mesmo os camaradas que defendem a ruptura imediata com os mecanismos do Partido Democrata precisam refletir sobre um argumento: um novo governo de Trump vai atrasar enormemente o desenvolvimento da necessária ferramenta política independente da classe trabalhadora.  Um novo governo Trump colocará a classe trabalhadora estadunidense em uma dura defensiva com o aumento da violência supremacista, do combate aos sindicatos, da perseguição ao imigrantes indocumentados, entre tantos outros riscos, enquanto um governo Biden pressionado desde o primeiro dia pelas ruas pode colocar os trabalhadores e trabalhadoras numa ofensiva que conquiste vitórias, aumente a confiança da classe e nos coloque mais próximos do objetivo de construir uma ferramenta política independente.

Somente a mobilização das massas pode derrotar o fascismo. É necessário combinar uma unidade de ação tática com forças burguesas e progressistas com uma nítida estratégia anticapitalista, golpeando o fascismo junto a outros setores porém marchando separadamente com uma estratégia de mobilização e ruptura que esteja a serviço dos interesses da classe trabalhadora. E esta aposta na mobilização deve necessariamente ter um caráter internacional, antirracista, de defesa da saúde pública e de condições dignas de vida frente à pandemia.

A luta eleitoral é uma parte menor e mais distorcida de nossa luta (lembremos que Trump perdeu as últimas eleições por quase 3 milhões), e depois de 3 de Novembro seguiremos nos mesmo combates. Mas as próximas eleições norte-americanas serão um momento central para a definição do cenário de combate que teremos depois de 3 de Novembro e nosso futuro próximo será diretamente determinado pelo que faremos nestas eleições.

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