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Via Esquerda.net

Que o mercado funciona, não haja disso dúvidas. O problema é como funciona e se resolve o problema da produção e distribuição de bens essenciais. A experiência das vacinas está a provar que não é o caso. Por isso, logo dois meses depois do festejo do sucesso que foi a conceção de vacinas em tempo fulgurante, os alertas sobem de tom: segundo a UNICEF, a este ritmo de produção o mundo só estará vacinado dentro de sete anos. Se assim for, não haverá imunidade de grupo e o tempo permitirá novas mutações perigosas do vírus.

Não há pressa

Os planos de produção das vacinas aprovadas nos EUA e na União Europeia (UE), as da Pfizer, AstraZeneca e Moderna, só protegerão em 2021 um terço do mundo. Outras vacinas, como a russa e as chinesas, também ainda não asseguram a vacinação sequer dos seus próprios países. Entretanto, as três maiores empresas no ramo, que não conseguiram sintetizar uma vacina, planeiam produzir 225 milhões de doses: a GSK fez um contrato com a Curevac para 100 milhões, a Merck desistiu de fabricar as suas vacinas e a Sanofi fará 125 milhões de doses da AstraZeneca, o que, no total, vale para 1,5% da população mundial.

Este bloqueio à produção tem uma origem clara. Em primeiro lugar, as empresas detentoras das patentes (por 20 anos) não querem envolver outras. A dinamarquesa Bavarian Nordic ofereceu-se para produzir 240 milhões de doses, sem resposta. Na Índia, onde estão as filiais com maior capacidade, há uma única empresa a produzir. As três empresas querem maximizar os seus lucros com a patente e com a produção, depois de terem recebido 88,3 mil milhões de dólares de fundos públicos dos EUA e UE. O resultado é que só 43% da capacidade produtiva mundial estão a ser usados.

Os que ficam de fora

Das 108 milhões de pessoas já vacinadas, só 4% são de países em desenvolvimento, quase todas da Índia. Dos países mais pobres do planeta, só a República da Guiné encomendou vacinas, 55 doses. Em qualquer caso, o mercado funciona, considerando a falta de recursos dos países do Sul: o plano de vendas da Pfizer é dirigido em 80% para os países desenvolvidos, que só representam 14% da população mundial. O mercado só reconhece quem tem dinheiro.

É certo que a pandemia ainda não parece ter atingido da mesma forma o Sul. A África Subsaariana, com 15% da população mundial, só identificou 3% dos casos. Mas sofre outro choque: a sua economia teve no ano passado uma queda como não acontecia há 25 anos, com mais 32 milhões de pessoas em pobreza extrema. E, como quase todas as 253 milhões de crianças deixaram de ter aulas desde há seis meses, os efeitos vão ser prolongados (se imagina aulas online, lembre-se de que metade da população do continente não tem eletricidade nem computador). Este mundo ficou de fora e a Covax, a aliança da OMS para as vacinas, admite que, no melhor dos casos, haverá um quinto desta população vacinada em 2021.

Guerras de alecrim e manjerona

Um ano depois de declarada a pandemia, apesar do sucesso científico sem precedentes, chegamos à realidade do mercado. E a guerra é feia de se ver: a Comissão Europeia, em desespero pela redução das entregas no trimestre pela Pfizer (menos um terço) e AstraZeneca (menos 80 milhões de doses), anunciou, a 29 de janeiro, o controlo de exportações. Juncker não perdeu a oportunidade para criticar a sua sucessora, que em março tinha feito um brilharete no Parlamento Europeu contra medidas protecionistas. Em todo o caso, o controlo não era bem para levar a sério, foi somente um estratagema para justificar contratos desastrados que permitiram aos fornecedores fazerem o que quisessem. Como escreveu Teresa de Sousa, insuspeita de reservas antieuropeístas, “a presidente da Comissão, que fez da vacina a sua imagem de marca e que tinha trabalho para apresentar, delapidou desnecessariamente o crédito acumulado ao não reconhecer os erros e ao responder às críticas com ataques a terceiros em todas as direções”.

Ursula van der Leyen, que no tempo dos discursos tinha sido incensada pelos seus discursos e como a mulher que salvaria a Europa, é agora abandonada pelos que descobrem que afinal, como aconteceu com todos os recentes presidentes da Comissão, foi colocada nesse lugar para seguir a luz de Merkel e de Macron, e não para lhes fazer sombra. O resultado é que a vacinação europeia é menor do que a do Reino Unido ou dos EUA e, como lembra o “Economist”, a função de dirigir a operação de distribuição das vacinas foi entregue a um departamento cuja função era superintender a etiquetagem alimentar.

Navegando entre subsídios e facilidades, as três farmacêuticas já anunciaram aos seus acionistas que esperam ter 30 mil milhões de dólares de lucro em 2021. Sim, o mercado funciona mesmo, só que não é para garantir a vacinação universal.

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