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Via Esquerda Online

Você sabia que menos de 2% das pessoas que receberam ao menos uma dose da vacina contra Covid-19 no mundo vive na África? Pois é, apenas 20 milhões de doses dos imunizantes foram aplicadas no continente que tem 1,2 bilhão de habitantes. Enquanto isso, países como Estados Unidos, Canadá e Reino Unido tem o suficiente para vacinar até 3 vezes sua população. Nos Estados Unidos, teve início esse mês uma nova etapa de imunização destinada a jovens de 12 a 15 anos de idade.

Segundo Tedros Adhanon, diretor geral da OMS, os países mais ricos que em termos populacionais correspondem a 15% da população mundial, concentram 45% das doses de imunizantes já aplicadas. Enquanto na outra ponta, os países de rendas mais baixa, que respondem por metade da população mundial, concentram apenas 17% das doses já aplicadas no mundo.

De acordo com dados fornecidos pela União Africana, até o início desse mês de maio alguns países africanos, dentre eles Tanzânia, Madagascar e Burkina Faso, não tinham recebido sequer uma única dose de vacina para aplicar na sua população. Nem mesmo o consórcio Covax Facility coordenado pela OMS tem dado conta de mitigar a profunda desigualdade. As metas de entrega de remessas de doses pelo consórcio estão seriamente comprometidas ao menos por dois problemas: 1-a priorização das grandes farmacêuticas pelos contratos com os países ricos; 2- a crise na Índia, país sede da farmacêutica Bharat biotech que é a principal fornecedora do consórcio, onde frente a onda de casos e mortes o governo tem retido a produção para distribuição interna.

O governo da África do Sul emitiu alerta no qual aponta que a África Subsaariana seria a região do mundo que menos aplicou vacina na sua população. Enquanto a média mundial no momento é de 150 doses para cada mil pessoas, na região a média despenca para dramáticas 8 doses para cada mil pessoas. Por conta desse contexto que, novamente segundo o etíope Tedros Adhanon que lidera a OMS, já vivemos sob a égide de um apartheid vacinal. Ou seja, os países ricos e imperialistas, que além de comandarem o sistema político e econômico mundial, são também a sede das maiores farmacêuticas do planeta, estão se vacinando e condenando os países mais pobres a pagar em vidas o preço da desigualdade política e econômica dentro do sistema mundo.

Neste 25 de maio, celebramos o dia mundial da África. A efeméride relembra a fundação da Organização da Unidade Africana em 1963, consagrada num Congresso que reuniu 35 nações africanas independentes. É um marco de um capítulo histórico nas lutas de resistência de um continente contra o saque de suas riquezas e o flagelo humano provocado pela devastação colonial. Não à toa, no contexto de sua fundação, a Organização da Unidade Africana – atualmente União Africana – estabeleceu como desafio central somar os esforços na luta pela libertação dos países que ainda estavam sob julgo europeu, dentre eles Angola e Moçambique.

A Europa legou a África um rastro de saques, guerras, mutilação de povos e fronteiras, e todo tipo de crimes contra a humanidade. Agora, mais uma vez, ao lado dos EUA e da China, voltam-se para o continente africano com o desejo de aproveitar o caos da crise sanitária, econômica e social, para reforçar uma posição de subalternização dos governos e economias da região. A extrema desigualdade no acesso a vacina, pilar fundamental para superação da pandemia, é só mais um capítulo perverso da História de como as metrópoles imperialistas se comportam perante o continente africano.

Na passagem desse 25 de maio, uma vez mais é preciso reafirmar como horizonte a defesa de uma África livre, autônoma e independente. Que nesse caminho, não basta suspender, mas sim anular a dívida externa dos países africanos. Que é preciso nacionalizar as suas economias, retirando o controle das grandes multinacionais europeias, estadunidenses e chinesas. E no imediato e urgente, deve-se exigir que os países mais ricos enviem vacinas a África. É mais do que um gesto humanitário ou de solidariedade internacional, é reparação histórica.

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