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Via Time

Quando Jair Bolsonaro fez uma campanha de sucesso para a presidência do Brasil em 2018, uma de suas promessas centrais foi liberar a polícia nas favelas, que são o lar da maioria dos cidadãos pobres e em grande parte negros do país. O congressista de longa data da extrema-direita, no curso da campanha, prometeu maior violência em nome da luta contra as quadrilhas de drogas e forneceu imunidades legais ainda mais fortes aos policiais que matam inocentes.

Na quinta-feira, no Rio de Janeiro, os brasileiros testemunharam mais uma vez as terríveis e selvagens consequências dessa abordagem, que ecoa fortemente a do ditador filipino Rogerio Duterte. Duterte tornou-se mundialmente notório (e domesticamente popular) por defender execuções extrajudiciais feitas pela polícia que mata tanto traficantes de drogas como residentes da classe trabalhadora cumpridores da lei. Bolsonaro, um admirador do autoritarismo onde quer que ele surja, há anos está ansioso para importar esse modelo para o Brasil.

No Jacarezinho – uma das maiores favelas do Rio onde cresci e minha família ainda vive – a polícia entrou de madrugada no dia 6 de maio com o objetivo declarado de prender traficantes de drogas. A força invasora parecia mais um exército em guerra do que uma operação policial convencional. Eles usavam helicópteros blindados, veículos tipo tanque, e cerca de duzentos oficiais fortemente armados.

Quando saíram, nove horas depois, pelo menos vinte e nove pessoas já estavam mortas. Um dos mortos era um policial, o resto vivia na favela. O Vice Presidente de Bolsonaro, General Hamilton Mourão, imediatamente alegou, sem apresentar nenhuma prova, que todos os mortos eram “membros de quadrilha”.

Foi a operação policial mais mortífera da história da cidade. Duas pessoas que andavam num metrô próximo foram feridas por balas perdidas. Muitos dos 40.000 moradores de Jacarezinho passaram o dia trancados em suas casas totalmente aterrorizados pelas forças policiais que alegavam trazer segurança para suas vidas, como ao invadirem a casa de uma família não relacionada ao tráfico de drogas e atirarem, na frente da filha de 9 anos, em um homem desarmado que havia fugido para dentro de casa.

Passei horas tentando desesperadamente falar com minha mãe, meus irmãos e amigos próximos pela WhatsApp e pelo Telegram durante todo o dia para ter certeza de que eles estavam seguros enquanto se deitavam no chão ou debaixo das camas para evitar balas perdidas. Os vídeos que surgiram, tirados por moradores corajosos, são muito difíceis de assistir, mostrando execuções sumárias de suspeitos já rendidos, presos ou feridos, juntamente com tiros indiscriminados.

Embora nunca antes tenham sido tão letais em termos de contagem de corpos, tais massacres policiais são comuns no Brasil, e os roteiros de cada lado são sempre os mesmos. Os apoiadores de Bolsonaro proclamam instantaneamente que todos os mortos são “criminosos” mesmo que nenhuma de suas identidades seja conhecida publicamente. Enquanto isso, alguns acadêmicos bem-intencionados e “especialistas em crime” – que raramente pisaram em uma favela e muito menos viveram nela – impondo reflexões a partir de uma estrutura simplista que branqueia os complexos problemas do crime violento que afligem a vida dos moradores pobres da favela.

Os slogans são tentadores diante de tanta carnificina humana, mas acabam servindo pouco para as pessoas cujas vidas são mais afetadas. As gangues da traficantes são reais, fortemente armadas, e atiram nas forças policiais quando estes entram na favela. Com pouco ou nenhum apoio do governo em serviços sociais, adolescentes e até pré-adolescentes são vulneráveis ao recrutamento pelas gangues de drogas como sua única saída para a pobreza e a miséria sem esperança – e muitas vezes como uma questão de proteger suas próprias vidas. Com favelas quase todas abandonadas pelo Estado, alguns líderes dessas quadrilhas dominam as favelas como ditadores, às vezes benevolentes como quando apoiaram medidas sanitárias para a COVID-19 quando Bolsonaro se recusou a fornecer ajuda aos moradores que precisam de cuidados médicos, mas outros governam como totalitários, apostando na violência e intimidação.

Não ajuda os moradores das favelas que forasteiros neguem a realidade destes problemas. Aqueles de nós que cresceram lá e cujas identidades são para sempre moldadas por este território entendem que é preciso muito mais do que uma moralização abstrata. Tenho trabalhado no Congresso para aumentar os recursos disponíveis para a inteligência policial, para evitar tiroteios indiscriminados e permitir-lhes localizar aqueles cujas prisões foram autorizadas pelos tribunais, bem como para fornecer aconselhamento sobre saúde mental aos policiais para prevenir a instabilidade e erradicar os maliciosos e psicopatas das forças policiais. O que é necessário não é uma cruzada geral e contundente contra a polícia, mas reformas e recursos para profissionalizar essas forças, ao mesmo tempo em que se exige responsabilização real para aqueles que abusam de seu poder.

Mas há um fato complicador que paira sobre tudo isso. Durante décadas no Brasil, as discussões sobre o crime se concentraram nas quadrilhas de drogas. Os rostos pobres e principalmente negros da favela fizeram imagens poderosas de vilões nas narrativas da mídia. Mas a realidade do crime brasileiro é muito diferente.

De longe as mais bárbaras e poderosas gangues criminosas não estão sediadas em favelas, mas são as terríveis facções paramilitares do país, compostas em grande parte por policiais, ex-policiais e ex-militares de classe média e branca. Estas milícias, elogiadas explicitamente há poucos anos por Bolsonaro como nobres vigilantes, agora controlam mais território no Rio do que as gangues de favela e também assumiram o tráfico de drogas. Eles são mais impiedosos, executando qualquer um que suspeitem de trabalhar com a polícia ou que resista a suas exigências de extorsão e afirmações de poder absoluto.

Alguns analistas criminais dizem que existe “uma acomodação [entre a polícia e] as milícias, inclusive porque muitos dos [membros das milícias] são policiais ou ex-policiais ou bombeiros”. Eles especulam que algumas ações policiais contra essas quadrilhas de favela podem ser motivadas não por um desejo de prender criminosos, mas sim de liberar as áreas para que as milícias possam tomar o controle. Esta preocupação aumentou muito com a crescente evidência dos laços da família Bolsonaro com as gangues paramilitares do Rio.

Vários escândalos, particularmente a investigação em andamento sobre o assassinato devastador de minha amiga íntima e companheira de partido em 2018, a vereadora Marielle Franco, revelou numerosos laços entre Bolsonaro, sua família e essas milícias que assassinaram Marielle. Poucos dias antes da operação policial em Jacarezinho, Bolsonaro reuniu-se com o recém instalado governador de extrema-direita do estado do Rio, Claudio Castro (seu antecessor acabou de ser impugnado por acusações de corrupção).

Não há evidências de que Bolsonaro tenha encorajado esta operação policial específica, mas a carnificina é uma manifestação perfeita da política criminal que Bolsonaro há muito procurava.

Qualquer que seja a verdade, o Brasil não pode mais tolerar assassinatos em massa sem sentido como o ocorrido no Jacarezinho na semana passada. Cada vez que isso acontece, a polícia percebe que pode matar quem quiser, com poucas consequências, encorajando-os ainda mais enquanto a vida não melhora para as pessoas que dizem estar ajudando. Os massacres policiais são imorais e criminosos, e as complexidades das questões criminais do Brasil não podem ser invocadas para alterar essa verdade básica.

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