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Via Esquerda Online

Recentemente uma « fotografia » sombria foi revelada no Canadá. A imagem exibe um dos retratos do legado da colonização: os ossos de 215 crianças indígenas mortas pelo/durante o sistema das Escolas Residenciais. Os restos mortais foram encontrados no porão da ex-Escola « Kamloops Indian Residencial School », localizada em Kamloops, na provincia de Columbia Britânica. A escola foi contruída em 1890 e partir de 1920 começou a receber crianças indígenas com idade entre 4 e 15 anos. A escola foi uma das maiores escolas residenciais do Canadá. A atrocidade foi silenciada por anos e até o momento nunca tinha sido documentado oficialmente nenhum caso de morte nesta escola. Estima-se que existam mais crianças enterradas no local e em outras Escolas Residenciais desativadas no resto do país.

O Primeiro Ministro do Canadá Justin Trudeau pediu na semana passada desculpas oficiais. Acredito, porém, que os « perdões » jamais apagarão da memória dos sobreviventes os traumas intergeneracionais introduzidos por esse sistema. Considero que perdões institucionais representam mecanismos de recoloção política para (re) abertura de diálogos com setores oprimidos objetivando produzir consensos e monopolizar a linguagem oficial sobre o tema tratado. Além disso, os « perdões », nestes casos, reiteradamente são acompanhados de reparacões financeiras em formas de políticas reparadoras, criando assim arenas normatizadoras que se repetem de tempos em tempos. De fato, em 2008 o então Primeiro Ministro do Canadá Stephen Harper já pedia perdão a todos os sobreviventes e suas familias pelo genocídio que marcou um capítulo vergonhoso da história do Canadá e com isso, viu apenas na reparação financeira, o caminho mais fácil para alívio de culpa sem promover de fato a dignidade da populacão indígena.

O pedido de perdão do Primeiro Ministro canadense, faz coro a uma onda recente de “perdões” anunciados pelos países imperialistas como a Alemanha que reconheceu ter cometido genocídio na Namíbia e a França que busca perdão pelas atrocidades em Ruanda. A descoberta recente dos restos mortais de crianças na Columbia Britânica gerou protestos2 em muitas cidades. Ativistas e militantes de movimentos sociais e indígenas lembraram o horror genocida durante as manifestações. Vem se tornando frequente nas manifestações globais a derrubada de estátuas de personagens famosos pelos terrores coloniais e isso tem sido bastante significativo para o acerto de contas com a história. Uma das acões dos ativistas foi a derrubada da estátua de Egerton Ryerson3, um dos arquitetos responsáveis pela criação das escolas residenciais. A estátua ficava localizada na University Ryerson em Toronto e segundo nota4 do Reitor da Universidade, o monumento não será colocado de volta.

O que foram as «Escolas Residenciais»?

Escolas Residenciais na minha opinião foram escolas-prisões. O objetivo principal foi dizimar a cultura das primeiras nações indígenas em nome de um ideal civilizatório ocidental. O Canadá foi um dos precussores do sistema de Escolas Residenciais no mundo5. O relatório Bagot de 18456 descreve o funcionamento, a organização e as várias regras do sistema das Escolas Residenciais. O mesmo relatório expõe um conjunto de regras de funcionamento e organização que as aldeias deveriam seguir. Em relação as escolas, os estabelecimentos foram administrados pelas várias Sociedades Missionárias, a exemplo da sociedade Missionária da Igreja da Inglaterra e pela Sociedade Missionária Metodista. É possível observar também no relatório um sistema « premiação » atribuído aos diretores das escolas pelo recrutamento de crianças indígenas paras as escolas. Para cada grupo de 21 meninos de 6 a 15 anos e 4 meninas de 6 a 10, o diretor de escola recebia recebia como prêmio £ 50. Essa quantia equivaleria hoje como poder de compra cerca de 1,801.55 dólares americanos.

Algumas décadas seguintes, o processo de normatização foi crescendo para controlar e punir e banir a cultura indígena. A lei sobre os Indios (Indian Act) de 18767 fez o governo canadense ter controle total sobre a cultura indígena. Essa lei permitiu o governo demarcar as terras indígenas determinando os direitos e deveres das etnias e até quem poderia ser ou não considerado como indío. A mesma lei impôs aos indígenas um documento que permitia a compra ou venda de seus produtos. A compra de roupas ou alimentos fora das aldeias ou vilarejos também carecia de autorização. Foi John A. Macdonald, Primeiro Ministro do Canadá, responsável pela criação e oficialização das Escolas Residenciais. Como escolas-prisões, estas deveriam manter as crianças isoladas e com quase nenhum contato exterior e com familiares. O regime severo e de contrôle total sobre os corpos das crianças fez o sistema prosperar enquanto órgão disciplinador. A partir de então, o numéro de Escolas Residenciais aumentou em todo território canadense.

O cotidiano das crianças nas escolas-prisões foi aterrorizante. Expressamente eram proibidas de falar seus idiomas e dialetos. Foi negado também às crianças o direito de pronunciar seus nomes espirituais que recebiam quando nasciam. Ao invés dos seus nomes eram dados números para identificação individual. Relata-se também vários casos de violência sexual e as punições eram frequentes8, variando de ficar sem comer por conta da desobediência, até visita no quarto onde se encontravam cadeiras elétricas. Uma sobrevivente chamada Hall conta que quando criança se lavava com muita força quando tomava banho com objetivo de « limpar a pele » para ficar branca. Ela cresceu odiando a cor de sua pele9. Quando se tornou adolescente ela inpirou-se no Movimento Americano Indígena e começou sua longa luta pela liberdade, igualdade e justiça social.

Apesar da grande violação dos direitos humanos foi somente em 1996 que a última escola residencial foi fechada. Interessante destacar que esta última escola, « The Gordon Residencial School », em Saskatchewan ficou conhecida por ser uma das mais famosas em casos de abusos físicos e sexuais do Canadá. Willian Starr diretor desta escola entre 1968 e 1984 praticou crimes sexuais além de usar seu cargo para intimidação e punição para alunos que discordassem dele. Starr foi preso em 1992 confessando os crimes e cumpriu pena de apenas 4 anos e meio em prisão10.

Difundir a história das resistências dos oprimidos

Observo que mesmo com a tentativa de discussão sobre a história dos povos oprimidos e a tentativa de superar o terror do passado colonizador como o que se viu na « Kamloops Indian Residencial School » recentemente, existe uma atenção muito grande em circunscrever a opressão colonial sem dar de fato a voz aos oprimidos. As desculpas em formas de retóricas do Primeiro Ministro, da ausência do Papa Francisco no reconhecimento das atrocidades da Igreja Católica, das coberturas da imprensa e muitas vezes até dos ambientes que deveriam focalizar o tema com maior atenção, como é o caso do ambiente universitário, silenciam, e não atribuem visibilidade às resistências individuais e/ou coletivas ocorridas nas variadas épocas das crueldades da colonização. Situação parecida ao passado escravocrata brasileiro onde viu-se o monopólio da história oficial apagar a voz dos movimentos e dos sujeitos de/da resistência.

Deparei-me com poucos registros de resistências individuais e coletivas sobre as Escolas Residenciais no Canadá. Existem muitos fóruns, comissões, institutos e centros de pesquisas, mas ainda é muito discreto a « voz da resistência » nas instâncias que fazem o debate público sobre esse massacre. Um dos poucos registros é o caso ocorrido na Escola Residencial “Thundercild Indian Residencial School” em 1940 em Saskatchewan que foi destruída por um incêndio11. Os documentos oficiais atribuem a possível culpa a 4 estudantes “rebeldes” que foram investigados mas por falta de evidências foi registrado que a escola estava velha e depois do incêndio o estabelecimento não foi reconstruído. Outro relato12 é o de Marie-Jeanne Papatie, a qual descreve suas memórias de quando seus irmãos e irmãs deixaram a reserva localizada no Lac-Simon para estudarem na escola residencial de Saint-Marc-de-Figuery no Quebec. Ela disse quando tinha 5 anos seu pai já contrário as escolas residenciais, decidiu escondê-la em um colchão improvisado no porão de sua casa onde ela avistava os ônibus escolares virem pegar as crianças para levarem as escolas-prisões. Quando o padre bateu na porta da casa dela seu pai o disse que ela tinha fugido.

Por fim, depois de ganhar audiência a descoberta dos restos mortais de 215 crianças vítimas das Escolas Residenciais as manifestações continuam em muitas cidades do Canadá e a questão indígena tomou conta dos principais noticiários no país. Desejo que depois de mais uma triste revelação a solidariedade e a resistência internacional dos povos oprimidos são os únicos ingredientes para transformar o sofrimento global em revolução social.

Rogério Freitas1 é professor da educação básica no Canadá.

1 Professor da educação básica no Canadá.
2 https://www.youtube.com/watch?v=-xBkIUV2Ddg
3 https://www.youtube.com/watch?v=ovmZGVHPcDk
4 https://www.ryerson.ca/news-events/news/2021/06/a-message-from-president-lachemi-on-the-removal-of-the-egerton-ryerson-statue/
5 Outros experiências similares de Escolas Residenciais ou missionárias podem ser vistas em : http://www.austlii.edu.au/au/journals/UWSLRev/2002/2.html ; https://www.un.org/esa/socdev/unpfii/documents/IPS_Boarding_Schools.pdf
6 https://nctr.ca/wp-content/uploads/2021/01/Bagot-report.pdf
7 https://laws-lois.justice.gc.ca/eng/acts/i-5/
8 https://fb.watch/5-u1TELIkc/
9 https://www.youtube.com/watch?v=j2ITeM8D93Y
10 https://www2.uregina.ca/education/saskindianresidentialschools/gordons-indian-residential-school/
11 https://www2.uregina.ca/education/saskindianresidentialschools/wp-content/uploads/2018/09/Fire-1.pdf
12 https://www.cbc.ca/news/canada/montreal/resisting-residential-schools-1.3823181

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