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Via Hebdo L’Anticapitaliste

Entrevista realizada por Julien Salingue

Então, aqui está você novamente, candidato presidencial. Em 2012 e em 2017, você era operário da Ford na região de Bordéus, lutando contra o fechamento da empresa. Desde então, infelizmente, a empresa fechou. Qual é a situação hoje para você e seus colegas da Ford?

Faz mais de um ano que fui demitido com todos os meus colegas, já que toda a fábrica foi fechada. Muitos de meus colegas encontraram trabalho novamente, mas em trabalhos menos qualificados, em situações mais difíceis do que antes, é claro. Estou quase no final da licença de reclassificação, sem perspectivas de emprego. Além disso, a própria agência de reclassificação não viu realmente como encontrar uma solução para mim, dado meu nome e minha situação de vereador eleitoi. Como para muitas pessoas, é uma situação preocupante. A situação de emprego é muito ruim, como sabemos, e quando você encontra um emprego é em condições precárias e difíceis, muito mais do que as condições que você pode encontrar em uma grande fábrica como a Ford. Tive a sorte de ter uma licença de reclassificação, que é uma válvula de segurança antes do desemprego, mas logo está terminando, e neste verão estarei desempregado de vez.

Por outro lado, a luta contra a Ford continua, estamos levando-os a tribunal, e só o início, e a luta será longa. Estamos contestando as demissões, estamos explicando que as demissões são ilegítimas, e estamos entrando com recursos na justiça. Teremos respostas em setembro. Mas, como a fábrica fechou, é difícil mobilizar, e sabemos que as decisões legais são sempre uma questão de relação de força, mas por princípio lutaremos até o fim: contestamos o direito de demitir trabalhadores, e, portanto, de fato, o direito à propriedade, ao qual nos opomos ao direito ao emprego, que deve vir em primeiro lugar. Assim, a luta contra a Ford e as demissões continua.

Desde as últimas eleições presidenciais, há outro lugar onde você começou a lutar, com seus camaradas de Bordeaux en Luttes (Bordeus nas lutas), com três eleitos no conselho municipal de Bordeaux. Como funciona? O que significa, no dia a dia, ser um vereador anticapitalista eleito?

É difícil, isso é certo. Tudo começou com algo surpreendente, já que foi na esteira da luta da Ford que iniciamos uma campanha municipal, num ambiente marcado pela mobilização contra a reforma previdenciária e também o movimento dos Coletes Amarelos, mesmo no final. E conseguimos construir essa chapa, com militantes sindicais, Coletes Amarelos, militantes do NPA (Novo Partido Anticapitalista), e da FI (França Insubmissa), com uma postura muito radical, pois não só foi contra a direita de Bordéus, que está no poder há 73 anos, mas também sem qualquer compromisso com a esquerda tradicional local (Partido Socialista, Partido Comunista, Verdes), ao criticá-los claramente. Fizemos uma campanha de protesto dinâmica, radical, anticapitalista, que mostrou que o problema era uma escolha de campo social: um Bordéus do povo contra um Bordeaux burguês.

E tivemos êxito: fomos para o segundo turno e temos 3 eleitos. Portanto, aqui estamos nós, conscientes de que forçamos nossa passagem, mas estamos aqui para representar a ira do povo, a crítica de um sistema que destrói a vida das pessoas, que empobrece, que torna tudo precário. Portanto, sabemos que nem tudo depende das autoridades locais, mas há coisas a dizer, a fazer, e é isso que estamos tentando fazer: ser levar a voz das classes trabalhadoras dentro do conselho municipal, estamos reforçando os laços com as associações, os sindicatos, e estamos tentando ser úteis em todas as batalhas que estão sendo travadas, por exemplo, neste momento, as lutas para a moradia. Tem sido um pouco complicado com a crise sanitária, mas estamos tentando coordenar, para fortalecer as estruturas coletivas, para realizar assembleias.

Nessas instituições, podemos ver que o desprezo da esquerda não é melhor do que o desprezo da direita com as pessoas. Eles estão desligados de tudo, não vivem no mesmo mundo que a gente, eles não se importam com o sofrimento social. Portanto, quando apresentamos estas ideias, estas vozes, eles não gostam, não ouvem, desprezam. Também, estamos conscientes de que, se pudermos ser úteis, no final é a mobilização das pessoas, a mobilização nos bairros da classe trabalhadora que pode realmente mudar as coisas. E gostaríamos de incentivar isso.

Na esquerda radical, entre os ativistas anticapitalistas e revolucionários, alguns dizem que pode valer a pena concorrer nas eleições locais, tentando ter eleitos, mas que a eleição presidencial é diferente e que não devemos participar. É verdade que não é natural para nós, longe disso, mas agora pensamos que tínhamos que participar e lançar tua candidatura. E que você diria para quem acha inútil?

Sim, este debate existe, até dentro de nosso partido. Na verdade, é um debate que temos sempre, e o tivemos novamente, talvez ainda mais acirrado, provavelmente porque a situação interna de nosso partido e, sobretudo, a situação externa são difíceis. A questão de ir às eleições presidenciais, portanto, surge, especialmente quando sabemos e repetimos que não é através de eleições que as coisas mudarão, mas através das lutas sociais.

Mais precisamente, numa relação de força deteriorada, em uma situação em que nos sentimos enfraquecidos, para lutar contra qualquer resignação, temos que reafirmar que temos todos os motivos para estar ali, que há um lugar que devemos ocupar. Claro que falamos coisas na rua, mas devemos usar todos os campos, mesmo o campo eleitoral, para vocalizar a ira do povo, para desafiar o sistema, para defender uma perspectiva oposta à resignação que ameaça nosso campo social. A eleição presidencial é uma luta entre outras, mas é uma luta, uma batalha política na qual podemos e devemos participar. É importante lembrar que as pessoas estão lutando e que têm razão em fazê-lo, em criticar radicalmente o funcionamento desta sociedade, e que é essencial que as pessoas tomam conta de seus próprios assuntos, que viram donos de seus destinos, que não deixemos que outros decidam por nós fazendo-nos acreditar que não somos capazes de fazer a sociedade funcionar.

A campanha ainda não começou, portanto, é claro que teremos a oportunidade de voltar ao programa, o que queremos defender nesta eleição presidencial. Mas talvez você já possa, em poucas palavras, dar alguns elementos do que uma campanha anticapitalista e revolucionária pode ser, no contexto que conhecemos, o de uma crise multidimensional do capitalismo: ecológica, econômica, social, política, sanitária

É difícil em poucas palavras… Antes de mais nada, há a crise social, da qual acabamos de falar com demissões, desemprego, miséria. Há também uma crise democrática muito forte, instituições que perderam sua credibilidade, como acabamos de ver com a abstenção nas eleições regionais. Esta abstenção é legítima em um sistema cada vez mais antidemocrático, onde as pessoas não se sentem mais representadas. Além disso, há a deriva autoritária do governo, com cada vez mais repressão aos protestos, aos movimentos sociais, aos bairros populares, podemos ver que as liberdades coletivas e individuais são cada vez mais ameaçadas

Então, existe esta emergência democrática, mas na verdade existem emergências em todos os níveis, e estamos pensando, naturalmente, na emergência ambiental, com um planeta à deriva, com grandes projetos, completamente loucos, que atacam o meio ambiente. Vemos também o surgimento de ideias reacionárias, racistas, contra as mulheres, LGBTIs… Na verdade tudo isto está ligado, e finalmente o que vemos é a destruição do que é coletivo, de todas as solidariedades. É uma forma de violência diária em toda a sociedade, violência em todos os níveis, um sistema que é cada vez mais brutal porque está cada vez mais em crise. E é claro que também queremos reivindicar o internacionalismo, reafirmar que somos solidários com os povos, que lutamos contra o imperialismo e o neocolonialismo da França, que recusamos fronteiras, que somos favoráveis ao acolhimento de migrantes, que nosso campo social é internacional. Esta também é a melhor maneira de enfrentar as ideias racistas, de enfrentar a extrema direita e de desafiar este sistema de cima para baixo.

i Na cidade de Bordeaux, os vereadores da oposição (obviamente o caso do Philippe Poutou) recebem uma indenização de 350 Euros (2 100 Reais) por mês, enquanto o salário-mínimo e de 1 530 Euros (9 200 Reais) (NdT)

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