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Via Insurgência

O Congresso Mundial da Natureza abre suas portas nesta sexta-feira (3), em Marselha (França), com previsões climáticas sombrias dos especialistas e com a plena participação dos povos indígenas, pela primeira vez em mais de 50 anos, em meio à pressão crescente de organizações ambientais.

Agência France-Presse, 3 de setembro de 2021

Aberto pelo presidente francês, Emmanuel Macron, o Congresso reúne milhares de especialistas em conservação da biodiversidade até o dia 10. Por conta da covid-19, grande parte dos debates acontecerá on-line.

Há décadas, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), organizadora do evento, trabalha discretamente para catalogar as riquezas naturais do planeta e orientar a política ambiental dos 170 países que a compõem.

Fundada em 1948, esta instituição tem como principal ferramenta sua Lista Vermelha de espécies ameaçadas, com nove níveis de alerta. Esta lista será atualizada neste sábado (4).

Até a data, a UICN catalogou pouco mais de 137.000 espécies de animais e plantas (sua meta é um mínimo de 160.000). Destas, 28% estão sob ameaça de extinção.

“A natureza sofre o declínio mais rápido da história da humanidade”, alertaram em 2019 os especialistas da ONU.

Espécies como o guepardo têm menos de 7.000 espécimes vivos. Outros, como o rinoceronte branco, estão praticamente extintos.

O papel das mudanças climáticas nesta dramática mutação da biodiversidade é tema de debate dentro da UICN, que deve aprovar se estabelece uma comissão sobre o assunto.

O Congresso de Marselha trabalha de maneira peculiar, por meio de uma assembleia conjunta de Estados e de organizações não governamentais. E, neste ano, pela primeira vez desde uma reforma votada em 2016, terá a voz e o voto de organizações indígenas.

Há um mês, cientistas especialistas em mudanças climáticas alertaram que o aquecimento global é pior e mais rápido do que se temia.

O mundo pode atingir já em 2030 o patamar de +1,5ºC, dez anos antes do esperado, advertiram os especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês).

“É absolutamente urgente tomar decisões firmes para proteger os ecossistemas”, defendeu o diretor do Greenpeace França, Jean-François Juilliard, nesta sexta-feira.

A UICN mantém um delicado equilíbrio entre a mobilização e o trabalho paciente de sua rede de colaboradores ao redor do mundo, basicamente voltada para a observação da riqueza ambiental e para alertar os governos sobre os problemas em seus territórios.

Diante das ações espetaculares de organizações como o Greenpeace, ou agressivas, como as do Extinction Rebellion nas ruas de Londres, a UICN “é muito mais branda, negociadora. Seu interesse é precisamente não antagonizar com os Estados e influenciá-los aos poucos”, explica Juliette Olivier, autora de uma tese sobre organização e pesquisadora na Universidade da Borgonha.

Falar e votar

Com mais de 1.400 membros, a União anunciou em 2016 a inclusão dos grupos indígenas. Este ano, eles poderão apresentar moções e votar.

Alguns militantes da causa indígena não puderam viajar por causa das restrições impostas pela União Europeia. No caso das vacinas anticovid-19, o bloco aceita apenas imunizantes produzidos por laboratórios como Pfizer e Moderna, e não aqueles fabricados na China, ou em Cuba.

O objetivo das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA) em Marselha é uma conseguir a aprovação de uma moção para proteger 80% da vasta bacia do Amazonas até 2025. Isso inclui as reivindicações por terras que tribos indígenas têm em andamento com os nove governos da região.

Os ambientalistas não descartam ações nas ruas de Marselha, para manter a pressão sobre seus “parceiros” dentro da UICN: os governos.

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