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colna

Fonte: Sin Permiso – 13/10/2016 – Tradução: Charles Rosa

O choque do NÃO

Fazia anos que eu não chorava, digo, com lágrimas de verdade. E a notícia do NÃO as arrancou de mim, com a carga que leva de angústia, de incerteza, e também de fúria, ante a comprovação da sobrevida que seguem tendo no país personagens tão toscos e violentos como Alvaro Uribe, com sua incitação ao ódio e sua cantilena requentada do anticomunismo e do antichavismo.

O sentimento é de medo, também, ante a possibilidade de que a situação que ficou aberta, tão instável, desate novas escaladas de violência. Os colombianos sabemos por experiência que um processo de paz abortado, com a consequente situação ambigua entre legalidade e clandestinidade, põe em alto risco a vida dos que participaram nas negociações com nome próprio e a cara descoberta. Ninguém esquece que no passado ocorreu a matança de dois mil militantes da União Patriótica, organização legal com bases políticas afins às das FARC. Ninguém esquece tampouco o assassinato da maioria dos comandantes do M-19 durante os rudes vaivéns daquele processo de desarmamento e ingresso à política legal.

Com o passar das horas vieram as reflexões. Por que ganhou o NÃO? Estávamos tão confinados no triunfo do SIM… Um par de semanas antes do plebiscito percorri várias cidades de meu país sondando opiniões aqui e acolá, e foi emocionante ver o entusiasmo do povo da montanha, que se organizava para receber a paz. Professores que se preparavam para acolher os órfãos do conflito; psicólogas que se ofereciam para assessoria gratuita às vítimas de trauma; comitês de bairro para acolher os deslocados; agronômos desejosos de colaborar na substitução voluntária de cultivos de coca; advogados dispostos a ajudar os camponeses no processo legal de recuperação das terras arrebatadas. Enfim, o que vi foi um país aberto à mudança, à reparação do insondável dano sofrido, à tarefa do perdão. Claro que eu pouco frequento os outros setores, o do NÃO: visão e inclinação unilaterais que como resta comprovado, levam ao wishful thinking e ao equívoco.

Democracia ou democraterismo

Circula uma opinião interessante acerca dos atuais referendos que em diversas partes do mundo – Grã-Bretanha, Hungria, Colômbia -, submetem assuntos decisivos, complexos e cheios de arestas, a um cara-e-cora de um sim ou não. Entre os que votaram NÃO na Colômbia, deve haver não só furiosos e homens da cavernas, mas também gente honestamente preocupada pelos termos do acordo. Era, realmente, um pacote muito gordo no qual pendia de um simples “SIM”, como se se tratasse de um “Like” no Facebook.

É preciso somar a isso a politização do contexto, tal como havia advertido de antemão o jesuíta Francisco de Roux: O plebiscito sobre a paz estava se convertendo numa sorte de debate pré-eleitoral, onde entravam mais em jogo as opções políticas de dois velhos rivais, o presidente Santos e o ex-presidente Uribe, que as possibilidades da própria.

O fato de que nesta ocasião as negociações foram levadas a portas fechadas e às costas do povo, foi algo que nunca me convenceu. Eu venho de uma experiência distinta como negociadora no processo de paz anterior, o que levou nos anos oitenta ao desarmamento do M-19. Em muitos aspectos mais caótico, contraditório, improvisado e inclusive sangrento que o atual. Mas ao mesmo tempo, aberto à participação popular e ao debate coletivo sobre o próprio terreno. Creio que processos, como o dos anos oitenta, preparam passo a passo a opinião pública, permitem lhe tomar o pulso, a convertem em cúmplice. Ao parecer desta vez foi demasiado pedir ao povo que aprovasse de afogadilho o que havia se pactuado desde longe e no petit comité.

Em meio do feroz revés, abre-se de todos os modos uma bonita possibilidade para Colômbia. A de que se mantenha entre o Presidente Santos, as FARC e os milhões de entusiastas, uma sorte de pacto de honra em torno da paz. Deixando de um lado as câmaras, as regalias, o Prêmio Nobel e o aplauso mundial, quiçá. Quem sabe assim, quem sabe mas quiçá, OXALÁ-, vejamos afiançar-se em minha terra uma paz profunda, que surja como compromisso de convicção e de coração.

Que Timochenko encontre a têmpora indispensável para cumprir com a promessa que fez por rádio ao país, depois de conhecer a notícia do NÃO: “As FARC-EP mantêm sua vontade de paz e reiteram sua disposição de usar somente a palavra como arma de construção rumo ao futuro”.

Que o presidente Santos encontre a força necessária para se manter a sua declaração depois da derrota do SIM: “Como Presidente, conservo intactas minhas faculdades e minha intenção de buscar a paz”.

E que nós os colombianos mantenhamos vivo o exemplo dos habitantes das zonas mais golpeadas pelo conflito armado, as mais pobres e apartadas, cujos habitantes foram vítimas de massacres e despojos e conheceram em carne própria a cara atroz da violência colombiana. E que apesar disso, ou precisamente por isso, lhe deram um generoso apoio ao SIM: Caloto, 72%. Cajibio: 71%. Miraflores, 85%. Silvia, 73%. Barbacoas: 73%. Mitú: 77%. Valle de Guamez: 86%. Toribio: 84%.

Na população de Bojayá, departamento negro do Chocó, onde nas piores épocas da guerra as FARC mataram 119 civis num ataque indiscriminado com morteiros e bombas de gás, os habitantes deram, durante o plebiscito passado, a mais comovedora demonstração do que pode chegar a ser o perdão, como gesto de grandeza e como ato moral: cerca de 96% votou pelo SIM à paz.

Por onde seguir

Também por experiência aprendemos que uma vez que a paz começa a andar, já não se detém. Corre como a água, e como a água, sabe encontrar seus próprios caminhos. Às vezes visíveis e pela superfície, outras vezes subterrâneos e invisíveis. O triunfo do NÃO no plebiscito leva a reconhecer que na hora de defender a paz colombiana, resultam decisivos os espaços amplos, a participação aberta e a mobilização popular, que antes o governo deu por desnecessários ou como favas contadas.

É emocionante e instrutivo ver que agora por todo o país, jovens do SIM e do NÃO estão organizando manifestações conjuntas a favor da paz. Juntos e revoltos, os do “sim” e os do “não”. E fazem isso para conversar entre eles, livres já do sonífero publicitário dos jingles oficiais pelo SIM, e livres também do ódio e da manipulação da campanha uribista pelo NÃO. Jovens do SIM e do NÃO que se reunem espontaneamente para trocar opiniões, buscar entendimentos, tratar de indagar as razões do outro para chegar a conclusões conjuntas. Eles vão abrindo o caminho que poderia levar, em que pese o NÃO nas urnas, nas ruas possa afiançar-se um grande grande SIM.

Borges dizia sobre o diálogo algo assim como que funde o que dizes tu e o que digo eu, até o ponto de que já não sabemos se o disseste tu fui quem eu disse, ou o que disse eu quem estás dizendo foste tu.

Paradoxos da história, sempre da história, sempre endiabradamente: ao que parece o NÃO está abrindo as portas a um poderoso e verdadeiro Sim.

Um grande SIM já somente acordado no papel, mas também como pacto de honra e convicção.

Um pacto de paz e perdão, já não somente do governo com as FARC, mas além disso, e sobretudo, do país consigo mesmo.

Para sair do atoleiro, a partir de agora a paz colombiana terá que ser do asfalto, do campo, incluente, amplamente debatida.

Num manifesto que acabam de lançar vários grupos de mulheres e meninas em Cali, pedem que de hoje em diante sejam tratadas como pactantes e não por pactuadas. Acrescentaria eu: pactantes e, portanto, Impactantes: fator decisivo; motor da paz.

Será prematuro pensar que não há NÃO que por SIM não venha?

Seria de justiça já não só política, mas sobretudo poética, que para o senhor Alvaro Uribe, tão amigo dos tiros, por fim um –este- lhe saísse pela culatra.

Os velhinhos de Estocolmo são difíceis de decifrar. Às vezes metem os pés pelas mãos – como aquele Nobel da Paz a Kissinger, o cúmplice dos ditadores assassinos na Argentina dos anos setenta-, mas outras vezes acertam. O Presidente Santos terá a possibilidade de assumir seu galardão como reconhecimento internacional para seu projeto pacífico, como verdadeiro matrimônio com a paz e como roteiro, e não como fez seu homólogo Obama, que levou seu Nobel por nenhum motivo.







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