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Fonte: Rebelion.org – 24/04/2018 – Tradução: Charles Rosa

O direitista Mario Abdo Benítez obteve um apertado triunfo nas eleições presidenciais no Paraguai e o Partido Colorado poderá governar mais cinco anos. Quando o comando de campanha de seu rival de centro-esquerda, Efraín Alegre, falou de um empate técnico pela escassa diferença de votos, o presidente do Tribunal Eleitoral, Jaime Bestard, sentenciou que o resultado era irreversível. Com mais de 97% das mesas apuradas, o candidato governista conseguiu que 46,4% dos votos, enquanto 42,7% optou por Alegre. Nestas eleições, também se elegeu um novo Congresso (onde as estatísticas preliminares apontam 17 senadores para os colorados, 12 para os liberais e apenas três para a Frente Guasú) e os governadores dos 17 departamentos (13 colorados –um a mais que em 2013-, três liberais e um a mais para Ganar).

Mario Abdo Benitez, filho do secretário particular do ditador Alfredo Stroessner, ganhou por menos de quatro pontos percentuais sobre o liberal Efraín Alegre da Grande Aliança Renovada (Ganar), apoiada pela coalizão de centro-esquerda Frente Guasú, liderada pelo ex-presidente Fernando Lugo. A sua vitória foi muito mais estreita do que a projetada por pesquisas anteriores.

Cerca de 4,2 milhões de cidadãos puderam votar (de um total de sete milhões de paraguaios) entre 10 fórmulas presidenciais registradas para escolher o sucessor de Horacio Cartes, que chega ao final de seu mandato com pouco mais de 23% de aprovação e uma fortuna pessoal aumentada. Aos 46 anos, Marito, como é chamado, sucederá a seu correligionário Horacio Cartes, que ele enfrentou nas internas partidárias. O presidente havia apoiado seu ex-ministro Santiago Peña.

Abdo entrou para a política partidária em 2004, pelas mãos do empresário Juan Alberto Ramirez Diaz de Espada, proprietário da empresa ADESA e do engenho de açúcar Santa Maria. Adbo rapidamente fundou o seu próprio setor interno, o movimento Paz e Progresso, seguindo um slogan de Alfredo Stroessner, juntamente com um neto do ditador, Alfredo Goli Stroessner.

Empresário da construção civil, Abdo Benítez possui duas empresas que se beneficiaram de contratos com o Estado paraguaio. Almacenamiento y Distribución de Asfalto (Aldía SA) foi criada em 1997 e entre 2010 e 2014 obteve contratos com o Ministério de Obras Públicas e o Município de Assunção por 18,5 milhões de dólares.

Também é proprietário da Creando Tecnología SA (Createc SA), fundada em 1998 com sua então esposa Fátima Díaz Benza, que faturou ao Estado, no mesmo período, outros 3,8 milhões de dólares. Mas os contratos com o Ministério das Obras Públicas cessaram quando se distanciaram do Presidente Cartes, para liderar a dissidência interna.

O Paraguai, que emergiu de 35 anos de ditadura em 1989, viveu sob a hegemonia do Partido Colorado nos últimos 70 anos, com a única exceção do governo do ex-padre e ex-presidente progressista Fernando Lugo (2008-2012), que foi demitido em um julgamento político um ano antes de completar seu mandato, com o voto dos liberais, hoje seus aliados eleitorais. O diário conservador ABC Color destacou em seu editorial que quando Marito começar a cumprir o que prometeu como candidato, aí encontrará o problema, depois de indicar que Abdo identificou em seu plano de governo fatores reais e preocupantes na política de desenvolvimento, como a crescente pobreza e desigualdade, que afeta mais da metade da população, a galopante insegurança cidadã e jurídica, deficiências nas áreas de saúde e educação, entre outras. “A pior herança que ele recebe”, diz a ABC, “é a deixada pelo seu antecessor: a captura do sistema político paraguaio por grupos mafiosos de interesse político e econômico bem organizados, que, sob a presidência de Horacio Cartes, conseguiram cooptar os Poderes Legislativo e Judiciário, bem como as principais instituições jurisdicionais da República, como a Procuradoria-Geral e a Controladoria-Geral da República. O editorial acrescenta que tudo se destina a governar o Estado paraguaio como uma empresa fraudulenta. O coloradismo já não é uma garantia.

Mas não se pode falar de apenas um coloradismo. Um setor importante da oligarquia tradicional (setor de exportação/importação, não ligado às máfias do contrabando e do tráfico de droga) desconfia do instrumento político liderado por Cartes, mas não do partido.

Outro grupo ligado aos narconegocios ligados ao carisma, aposta que seu líder pode voltar ao poder se a Assembléia Constituinte a ser convocada no próximo ano permitir a reeleição do Presidente; e um terceiro setor, formado pela tradicional oligarquia latifundiária, não confia mais no Partido Colorado como garantidor de seus interesses de classe.

O Partido Colorado é o que administra os aparelhos institucionais, judiciais e policiais que possibilitam o contrabando e o tráfico de drogas no Paraguai, usados pela Cartes para, através de uma desocracia financeira, recuperar o quanto os negócios privados poderiam favorecer suas empresas, diz o analista Daniel Feipeler. É o Coloradismo que garante a interferência militar dos Estados Unidos, a pretexto da luta antidrogas, em um local central para o controle do Cone Sul e seus recursos naturais, acrescenta.

O Paraguai, um país rico em hidroeletricidade – com acordos que o novo governo deve renegociar com o Brasil e a Argentina – mas sem acesso ao mar, não conseguiu reduzir sua alta taxa de pobreza.

Um dos balanços da década dos governos progressistas da região é não ter sido capaz de construir a tempo quadros políticos e figuras eleitorais para substituição. Parece que a relação direta entre o líder popular (Fernando Lugo) e seu povo representa tanto uma força como uma fraqueza (a dependência do processo de transformação da liderança em poder revalidar-se nas urnas). E como vimos no Brasil, Argentina, Equador, entre outros países da região, a direita atinge essa fraqueza.

A Frente Guasú, diante da impossibilidade da candidatura de Lugo, avaliou suas margens de ação: apresentar-se com uma lista pura; formar uma Aliança com setores conservadores e liberais, ou formar uma aliança com pequenos partidos para tentar sair do bipartidarismo histórico com uma terceira posição, mas sem uma opção real de vencer.

Embora a plataforma eleitoral Alianza GANAR seja mais progressista do que a que levou Lugo à presidência em 2008, há uma diferença importante entre uma plataforma eleitoral e o desenvolvimento do programa político uma vez no poder. No entanto, essa opção também pode significar uma construção mais ampla e sustentável ao longo do tempo, com vocação para o poder.

A opção de uma aliança com setores de direita fez com que vários partidos e setores políticos se afastassem da Frente Guasú porque entenderam que se tratava de entregar as bandeiras e os princípios de concertação. O desafio da esquerda, depois desta experiência eleitoral fracassada, é agora sustentar ao longo do tempo uma visão de articulação de interesses sociais e populares, superando a debilidade levantada em relação à relação líder-massa e a impossibilidade constitucional da candidatura direta de Lugo.

Efraín Alegre, um advogado de 55 anos que iniciou a sua atividade política em oposição à ditadura, tentava pela segunda vez tornar-se presidente. Em 2013, ele só teve o apoio de seu partido Liberal, e perdeu para o atual presidente.

Além de presidente e vice-presidente, foram eleitos 45 senadores (mais 30 suplentes), 80 deputados, 17 governadores, 17 conselhos departamentais e 18 membros do Parlamento do Mercosul. Entre os candidatos ao Senado estão três ex-presidentes: Cartes, e seus antecessores Nicanor Duarte Frutos e Fernando Lugo.

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