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Fonte: Nueva Sociedad – Abril de 2018 – Tradução: Charles Rosa

O perfil do novo presidente

Mario Abdo Benitez, mais conhecido como “Marito”, é filho do conhecido secretário particular de Alfredo Stroessner de mesmo nome, que caiu em desgraça após a queda do ditador. Embora sua vida sempre tenha estado intimamente ligada ao Partido Colorado, Marito começou sua incursão mais ativa na política apenas em 2006, nas eleições internas (ou primárias) desse partido.

Naquela oportunidade, foi eleito membro da Junta de Governo, o mais alto órgão de governo dos Colorados. Para estas eleições internas, Marito formou um movimento com o nome de “Paz e Progresso”, o lema usado por Stroessner durante seu regime, na companhia de seu amigo Alfredo “Goli” Stroessner, neto do ditador derrubado.

Após o triunfo de Fernando Lugo em 2008 e a consequente saída do Partido Colorado da Presidência do país após 60 anos ininterruptos no poder, Marito teve um papel ativo na rearticulação do partido. Ele atuou como vice-presidente dessa organização até 2011 e, para as eleições internas partidárias do final de 2012 para as eleições gerais de 2013, formou um movimento independente para concorrer a um assento na lista partidária para o Senado. Nessa ocasião, apoiou a nomeação de Horacio Cartes, mas apresentou uma lista separada. Os resultados foram favoráveis para ele, e assim ele foi primeiro colocado na lista oficial do partido e depois no Congresso Nacional.

Em 2015, uma vez iniciada a campanha para a eleição das autoridades do Partido Colorado, Marito se distanciou do presidente Cartes. Na ocasião, Cartes não apoiou sua candidatura e promoveu a indicação do deputado Pedro Alliana, que acabou se tornando presidente do partido. Apesar da derrota, Abdo Benítez continuou a organizar a oposição interna do Partido Colorado e conseguiu se tornar presidente do Congresso em 2015, posição a partir da qual articulou uma forte oposição contra os projetos do presidente Cartes. Um dos destaques deste deputado veio com a tentativa de introduzir a reeleição presidencial através da emenda promovida pela própria Cartes, que levou aos fatídicos acontecimentos de março de 2017.

Marito confrontou Cartes novamente nas eleições internas de dezembro de 2017 para a eleição do candidato a presidente da República do Partido Colorado. Desta vez, concorreu com o ex-Ministro das Finanças Santiago Peña e venceu a eleição. Nesta disputa eleitoral teve que confrontar um presidente em exercício com a gestão de toda a estrutura do Estado, além de uma fortuna imensa. Embora a disputa tenha sido promovida como uma luta entre David e Golias, Marito teve um apoio significativo.

Recebeu forte apoio de setores rivais de Cartes e também teve uma importante fortuna particular de apoio, assim como a maioria dos herdeiros do stronismo.

Os resultados: uma vista geral

Os resultados destas eleições presidenciais foram, sem dúvida, os mais rigorosos nos quase 30 anos de democracia do Paraguai. Embora 10 candidatos tenham concorrido à Presidência e Vice-Presidência da República, a eleição foi polarizada entre Marito, candidato do Partido Colorado, e Alegre, postulado pela Alianza Ganar, formada pelo Partido Liberal e pela progressista Frente Guasú. De acordo com os resultados provisórios divulgados pelo Tribunal Superior de Justiça Eleitoral, enquanto o primeiro obteve 46,44% dos votos, o segundo atingiu 42,74%. Em números absolutos, a diferença foi de apenas 96.000 votos.

A justiça eleitoral também avançou alguns resultados provisórios para as listas de governadores e senadores, nas quais há também um triunfo colorado.

O Partido Colorado ganhou 13 dos 17 governadores do país, contra 12 ganhos na eleição de 2013. Desta forma, os Colorados conseguiram manter a administração de 10 governadores e acrescentar mais três, perdendo dois anteriormente sob seu poder.

No Senado, os Colorados ganharam 17 dos 45 assentos, um a menos que nas eleições anteriores, enquanto os liberais ficaram com 13 assentos, o que representa o mesmo número obtido em 2013. A Frente Guasú, liderada por Fernando Lugo, aumentou sua força parlamentar de cinco para seis cadeiras, tornando-se a terceira maior força do Senado.

O Partido da União Nacional de Cidadãos Éticos, de direita, do falecido general Lino Oviedo, perdeu um dos dois assentos conquistados em 2013, enquanto o Partido Democrático Progressista ficou com dois dos três assentos conquistados nas eleições passadas.

Além dos partidos acima mencionados, outras forças políticas fora do Congresso puderam ter acesso ao Senado para a próxima legislatura. Primeiro, o conservador Partido Pátria Querida, que havia saído do Senado nas eleições do ano passado, voltará à Câmara com três cadeiras.

O novo partido Hagamos, liderado pelo comediante e vereador Tony Apuril, estreou em suas primeiras eleições com duas cadeiras, enquanto o controverso advogado paraguaio “Payo” Cubas também teve acesso a uma cadeira com seu movimento Cruzada Nacional.

Outro aspecto a ser levado em conta nestas eleições para o Senado é a sua baixa composição de mulheres, com apenas oito em cada 45 senadores. Além disso, um alto grau de reeleição dos parlamentares pode ser observado, como 22 dos 45 ex-senadores que permanecerão na Câmara. No entanto, por serem provisórios, estes valores podem apresentar algumas variações após exame oficial das atas.

As perspectivas

As perspectivas futuras do novo governo de Mario Abdo Benitez são ainda algo incertas. Apesar de, nas suas duas campanhas, para as eleições internas e depois para as eleições gerais, ter apresentado muitas das suas ideias e propostas, é difícil discernir entre meros slogans eleitorais e planos de governo eficazes.

Nas internas partidárias, Marito criticou muitas das medidas tomadas pelo atual presidente, criticou o endividamento acelerado através da emissão de títulos soberanos e descreveu como deficientes as políticas sociais do governo voltadas para os setores mais vulneráveis. Ele até criticou duramente o presidente Cartes por usar sua posição para facilitar a expansão de seu negócio, acusando-o de ser um carrapato do Estado.

Não obstante o acima, uma vez eleito candidato do partido, seus discursos mudaram para um terreno mais conservador e menos focado na gestão do Estado eficiente. Desta forma, suas propostas giravam em torno da promoção do Serviço Militar Obrigatório como espaço de educação para a juventude paraguaia, assim como a luta contra as demandas dos setores e organizações feministas que promovem os direitos das pessoas homossexuais.

No entanto, além de todos esses slogans e propostas, parece que o principal desafio de Marito será a construção da governança. Isso se deve ao fato de que, embora tenha conseguido derrotar Cartes no partido interno, ele lidera o mais importante movimento interno dentro do partido, com o maior número de senadores e governadores colorados. Além dessa frente interna, Marito terá que lidar com uma Câmara de Senadores com uma minoria colorida, com um Partido Liberal que permanece em números e com um bloco progressista como a Frente Guasú, que se consolida como a terceira força para o próximo período.

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