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Acreditamos que a resposta é sim. Em outro artigo que está neste boletim e que se complementa com este, Nayana Menezes relata e analisa a “live” que as quatro organizações da IV Internacional fizeram com o dirigente negro ferroviário Keon Liberato de “Bread and Roses”, uma corrente integrante do DSA. Segundo Nayana, foi um “curso” sobre o movimento dos afro-americanos e a classe operária nos EUA que colocou muitas coisas que os socialistas brasileiros temos que pensar. Vivemos num país que mais de 50% da população tem sua origem nos povos da África como os negros nos EUA, e ainda é maior nos trabalhadores e pobres.

Um artigo do New York Times de 3 de julho que se intitula “Black Lives Matter pode ser o movimento maior na história dos Estados Unidos” dá para pensar em que momento da luta antirracista estamos no mudo. Os jornalistas Larry Buchanan, Quoctrung Bui e Jugal K. Patel baseiam esta opinião numa série de pesquisas e investigações de várias universidades e institutos dos EUA. Escrevem os articulistas que “quatro pesquisas recentes, incluída uma publicada nesta semana por Civis Analytics, (…) sugerem que entre 15 e 26 milhões de pessoas nos Estados Unidos participaram em manifestações pela morte de George Floyd nas semanas recentes. Segundo entrevistas com acadêmicos e especialistas sobre contagem de multidões, estas estatísticas fariam dos protestos o maior movimento da história do país”. E agregam no artigo que, “embora é possível que mais pessoas disseram que protestaram do que realmente o fizeram, inclusive se somente a metade disse a verdade, as pesquisas sugerem que mais de sete milhões de pessoas participaram em manifestações recentes”.

Ou seja, em números é bastante superior ao observado na Marcha das Mulheres de 2017 que teve uma participação de aproximadamente entre três milhões a cinco milhões de pessoas num só dia. Aquele foi um evento contra Trump altamente organizado enquanto a atual rebelião negra sob a ideia de Black Lives Matter, tem um alto conteúdo de espontaneidade. Segundo os articulistas como mínimo duplica ou triplica esses números. “As recontagens revelam números de escala extraordinária. Em 6 de junho, por exemplo, ao menos 50 000 pessoas acudiram à Filadélfia, 20 000 no Union Park de Chicago e até 10 000 no Golden Gate Bridge”, dizem em seu artigo..

Embora possamos dizer que o quantitativo não necessariamente indica o qualitativo – ou seja, a definição como a maior não quer dizer a mais importante na história – mostram a grande comoção social que mudou a consciência das massas em relação ao racismo. Ou seja, se pôs em marcha um movimento que não terminou com os atuais protestos. Que é qualitativo no sentido de que – apesar de que as manifestações sigam logicamente diminuindo -, muda a consciência de massas sobre o racismo. No último domingo, foi derrubada em Baltimore a estátua de Colombo, principal símbolo de espoliação dos países imperialistas da Europa.

Esta mudança que acontece no principal país da dominação imperialista, já abriu uma nova situação no mundo da qual não conhecemos ainda seus desdobramentos futuros. Mas se sabemos, concretamente, que o racismo passou a ser uma pauta fundamenta da luta de classes mundial. E que se começou uma tomada de consciência de que o racismo tanto no Brasil como os EUA e Europa é um instrumento para a opressão e exploração capitalista. Não podemos deixar de registrar que os EUA e Europa são os países onde a cresce a afluência dos imigrantes que vão a esses países escapando da fome e a miséria em seus países de origem pela espoliação imperialista e é nesses países também – assim como no Brasil-, onde setores da alta burguesia tomam bandeiras neofascistasque são acompanhadas por um setor do movimento de massas. A partir de agora a luta de classes vai a tomar a bandeira do racismo. E é uma bandeira – pensamos nós-, que é antissistema porque o racismo não tem solução nos marcos do atual sistema de acumulação capitalista.

O racismo estrutural dos EUA não é algo distinto do que tem o Brasil. Em ambos os países, como também no Caribe e nos Andes, a marca que deixou a colonização não foi resolvida; a formação dos estados nacionais se fez sobre um capitalismo que usou a mão de obra escravista. O objetivo da conquista e colonização da América foi a acumulação capitalista da burguesia europeia. Esta acumulação foi diferente à que se fez na Europa que foi mediante a super-exploração de trabalhadores e trabalhadoras especialmente as crianças. Na América foi sobre a base de relações de produção escravistas do povo negro trazido da África. Não foi muito diferente à que os colonizadores fizeram dos indígenas dos povos andinos.

Nahuel Moreno foi um dos primeiros marxistas a ter esta caracterização em 1947. Escreveu, então: “A colonização espanhola, portuguesa, inglesa, francesa e holandesa da América é essencialmente capitalista. Seus objetivos foram capitalistas e não-feudais: organizar a produção e os descobrimentos para obter benefícios prodigiosos e colocar bens no mercado mundial. Não inauguraram um sistema de produção capitalista porque não havia nenhum exército de trabalhadores livres no mercado nos Estados Unidos nem na América Latina. Portanto, para explorar capitalisticamente se veem obrigados a recorrer a relações de produção não capitalistas; relações de escravos ou semi-escravos; formas e terminologias feudais são os três pilares sobre os quais se estabeleceu a colonização da América”.

Para essa época – e para agora-, esta caracterização foi muito importante na polêmica com o stalinismo, para quem, como a colonização teria sido feudal, o que estava colocado era uma revolução democrática burguesa. Esta caracterização permitiu entender que as tarefas democráticas e da independência do imperialismo não eram burguesas. Que as tarefas democráticas – e entre elas a luta pela liberação do povo negro-, estavam definitivamente unidas num programa de transição ao socialismo e que não podiam ser levadas adiante pela burguesia.

A formação econômica social em nossos países leva o selo histórico e presente do escravismo. Nem as lutas de libertação nacional na América Latina nem a guerra de secessão dos EUA resolveram este problema histórico, que continua agora. A discriminação e o racismo contra o povo negro foi e é fundamental para ter uma mão de obra mais barata que possa ser explorada. Por isso, estamos ante uma luta histórica para derrotar o racismo e o capitalismo.

Pedro Fuentes é dirigente do PSOL e editor do Observatório Internacional.

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